Tessa (Cynthia Erivo) é uma advogada criminalista brilhante e implacável, que se especializou em defender homens acusados de agressão sexual. Conhecida por sua habilidade em desconstruir testemunhas e vencer casos difíceis, ela acredita firmemente no sistema jurídico até o momento em que ela mesma sofre uma violência sexual e precisa, pela primeira vez, estar do outro lado do tribunal como vítima, tendo que enfrentar as mesmas táticas que ela usava.
A primeira metade do filme é eficiente em apresentar a personagem, seu passado humilde e sua ascensão feroz no tribunal, mas se esforça demais em tornar ela agradável e como a heroína da história. O filme tem medo de deixá-la ser antipática, ambiciosa ou moralmente ambígua, e insiste em suavizar suas arestas, o que a deixa menos interessante do que a personagem complexa, contraditória e por vezes difícil da peça teatral que o filme é baseado.
O que segura o filme inteiro é a bela atuação da atriz protagonista. Cynthia Erivo segura todas as cenas nas costas, mesmo quando o roteiro dá uma escorregadinha. Ela é magnética nos de colapso silencioso e, principalmente, nos momentos melodramáticos do final do filme que se passam em um julgamento, onde ela consegue dar dignidade e verdade a um texto que poderia facilmente cair no discurso panfletário. O maior problema, porém, é a falta de criatividade do filme em certas passagens. A direção opta por uma linguagem muito televisiva e literal, sem encontrar um equivalente cinematográfico para a claustrofobia e a teatralidade da peça original. Faltou um pouco de inventividade visual para traduzir o trauma, com escolhas de montagem e fotografia que são burocráticas quando deveriam ser perturbadoras.
Nota: 3,5/5
(Assistido no Festival do Rio)
Direção: Susanna White
Elenco: Cynthia Erivo, Daniel Ings e Elizabeth Dulau
Análise feita por Laércio Barbosa