Já vou confessar logo de cara: eu não li o livro. O mais novo longa do diretor François Ozon adapta o clássico O Estrangeiro, de Albert Camus, lançado em 1942. Entretanto, sou mais do que familiarizado com outros títulos da carreira do filósofo, como A Peste (1947) e O Mito de Sísifo (1942) . Camus trazia conceitos existencialistas e absurdistas em suas obras, e isso não poderia ficar mais evidente do que no longa, que, apesar de contar uma história distante da época em que foi concebida, parece assustadoramente atual.
A trama acompanha Meursault (Benjamin Voisin), um homem francês aparentemente apático e indiferente ao mundo à sua volta, vivendo na Argélia sob ocupação francesa na década de 1930. Tal apatia o leva a percorrer uma espiral de eventos, eventualmente culminando em um crime e em seu julgamento.
O filme, em preto e branco, abre com Meursault sendo preso, com a história até o momento de seu encarceramento sendo contada através de flashbacks. O longa começa deixando o espectador confuso sobre a linha cronológica dos eventos, e era esperado que, ao longo da produção, tudo ficasse mais claro, mas não. Sim, entendemos o que houve, acompanhamos os eventos, mas a pergunta persiste: o porquê?
E isso não é um ponto negativo, afinal, como eu disse na abertura deste texto, as obras de Albert Camus possuem esse aspecto existencialista e absurdo, no qual somos levados a questionar não apenas os personagens, mas também nosso papel em nossas próprias narrativas. Meursault é assustador não por demonstrar um perigo iminente à sociedade ou por carregar profundas feridas e traumas prestes a vir à luz, mas por ser completamente indiferente. Não demonstra sentimentos, não demonstra protagonismo, sendo apenas uma escuridão sem fim em uma época de repressão. A atuação de Benjamin Voisin arrepia, trazendo um vazio profundo no olhar e nos gestos, quase como um corpo sem alma para seu personagem.
O Estrangeiro (2026) não é um filme para todos. É vago e, muitas vezes, confuso, mas aí que está seu trunfo. Para que haja opressão e tirania, é necessário primeiro haver apatia no coração daqueles que observam pela janela, indiferença com nossos semelhantes e, bom… liguem a TV e assistam aos jornais.
No fim, O Estrangeiro (2026) incomoda por ter uma narrativa que, apesar de ter sido escrita no auge da Segunda Guerra Mundial, há 84 anos, é mais atual do que nunca.
Nota: 4/5
Direção: François Ozon
Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder , Pierre Lottin, Swann Arlaud, Denis Lavant
Análise feita por Bruno Sá