Como já deixei claro em alguns dos meus textos anteriores, não sou o maior fã de filmes biográficos, os chamados biopics. Particularmente, enxergo esse tipo de projeto como um apelo ao ego do representado, em vez de retratá-lo como um ser humano falho que conquistou seu espaço e construiu seu legado. Dito isso, um longa sobre a lendária atriz francesa Sarah Bernhardt definitivamente não estava no meu bingo de 2026.
Conhecida como “a atriz mais famosa da história”, Bernhardt praticamente inventou o conceito de celebridade. Com sua espontaneidade, paixão e um talento invejável sobre os palcos, seu nome era conhecido em praticamente todo o mundo. Apesar de seu prestígio e reconhecimento, Sarah viveu uma vida digna dos contos mais apaixonantes e intensos que se pode imaginar.
Seja pela distância temporal em relação à vida da atriz ou pela coragem e sensibilidade de seus realizadores, A Divina Sarah Bernhardt, como era conhecida e que dá nome ao longa, é uma obra ardente e emocionante, que não foge das polêmicas enquanto retrata uma mulher à frente de seu tempo e um verdadeiro símbolo de resistência em um mundo profundamente conservador.
Após passar por uma delicada cirurgia, Sarah Bernhardt (Sandrine Kiberlain) relembra uma vida marcada pela fama, por romances intensos e por estar constantemente sob os olhares de todos ao seu redor. Entre memórias e flashbacks, acompanhamos o nascimento de uma lenda em meio a uma conturbada história de amor.
Elogios não são suficientes para descrever o trabalho da atriz francesa Sandrine Kiberlain. Espontânea, deslumbrante e extremamente cativante, a atriz domina completamente a tela. Sua presença engrandece o filme, que sabiamente aproveita sua performance com diversos planos fechados, fazendo com que nos tornemos íntimos de Sarah. O longa não se preocupa em mostrar como ela chegou aos palcos, mas sim seu auge como uma celebridade mundial. A partir desse recorte, acompanhamos o preço da fama e a pressão constante sobre seus ombros, enquanto o roteiro explora as consequências de uma vida marcada pelos excessos, tanto física quanto emocionalmente.
Kiberlain emociona com a mesma facilidade com que diverte. E, embora nenhum outro membro do elenco tenha a mesma força de presença que ela, Laurent Lafitte, no papel de Lucien Guitry, acrescenta peso às cenas em que aparece justamente por representar o completo oposto da protagonista: um homem aparentemente mais reservado e contido, capaz de conquistar Sarah de uma forma que nenhum de seus outros amantes conseguiu.
É interessante notar que, apesar de ter vivido entre o fim do século XIX e o início do século XX, Sarah Bernhardt estava muito à frente de seu tempo. Conhecida por seus diversos amantes — incluindo mulheres —, ela desafiava os padrões conservadores da época e defendia a independência feminina, tornando-se alvo constante de críticas e julgamentos. Seria muito fácil para o longa antagonizar Sarah ou até reduzir sua trajetória à ideia de que uma vida de excessos inevitavelmente levaria à sua ruína. Mas não é esse o caminho escolhido.
Sim, Sarah enfrentava uma pressão enorme, principalmente psicológica, por desafiar as convenções sociais, mas, acima de tudo, era um símbolo de resistência. Seria igualmente fácil transformar sua história em algo vulgar apenas para chocar o espectador. Em vez disso, o filme trata sua vida amorosa e sua sexualidade com delicadeza e sensualidade.
Sarah é retratada como uma mulher que, em meio a um mundo sufocante, jamais teve vergonha de ser quem era. Ela defendia que as mulheres deveriam explorar livremente seus desejos, amar quem quisessem e não se submeter às imposições do patriarcado.
Em 2026, é curioso perceber como temas que por muito tempo foram tratados como tabu, ou utilizados apenas como artifícios para atrair público, hoje começam a ser abordados com muito mais maturidade. Assim como a recente comédia O Convite, de Olivia Wilde, defendia a liberdade de viver a própria sexualidade sem rótulos, A Divina Sarah Bernhardt mostra que muitos desses valores já eram defendidos por Sarah há mais de um século.
Nota: 4/5
Direção: Guillaume Nicloux
Elenco: Sandrine Kiberlain, Amira Casar, Mathilde Olliver, Laurent Lafitte, Laurent Stocker, Pauline Étienne, Arthur Mazet, Grégoire Leprince-Ringuet