Bom, acredito que todo mundo já ouviu falar sobre a “maldição” das adaptações de videogame. Resumidamente, é quando você reduz os elementos de um jogo à sua concepção mais básica e os coloca nas telonas sem qualquer esmero pela narrativa. Sim, nos últimos anos tivemos muitas adaptações de jogos que me fizeram acreditar que essa maldição havia ficado para trás, mas The Mortuary Assistant me faz pensar que ainda temos um longo caminho pela frente.
A trama acompanha Rebecca Owens (Willa Holland), recém-formada que aceita um emprego noturno na funerária River Fields. Enquanto embalsama corpos, eventos sobrenaturais começam a acontecer, levando-a a confrontar traumas do passado e encarar uma entidade demoníaca. Baseado no jogo lançado em 2022, conhecido por sua atmosfera solitária e sufocante, onde o jogador se vê cercado por incertezas, eventos macabros e uma constante luta pela sobrevivência enquanto desvenda os mistérios na funerária. No game, os elementos sobrenaturais funcionam como um convite à curiosidade, instigando o jogador a buscar respostas. Já no filme, isso exige um roteiro minimamente estruturado para conduzir o espectador, algo que claramente não acontece.
A produção até começa bem, com uma sequência inicial agoniante de embalsamamento e uma tentativa de aprofundar os traumas da protagonista. No entanto, tudo desanda no momento em que o longa precisa lidar com o elemento sobrenatural. Dirigido por Jeremiah Kipp, o filme parece incapaz de organizar seus próprios elementos de mistério e horror, ou simplesmente demonstra pouco interesse em fazê-lo. Em vez disso, opta por jogar tudo na tela de uma vez, como se a familiaridade com o material original fosse suficiente para sustentar a narrativa.
Ao descobrir que o longa seria distribuído pelo Shudder, plataforma conhecida por apostar em produções mais ousadas e viscerais dentro do horror, a expectativa era de algo mais cru e marcante. Mas, com exceção da cena de abertura, o filme rapidamente se rende aos clichês mais batidos do gênero de possessão: alucinações desconexas, sustos baratos e um CGI pouco convincente, a ponto de fazer o recém lançado Terror em Silent Hill: Regresso ao Inferno parecer Avatar em comparação. Apesar dos problemas, Willa Holland é facilmente o destaque do longa, se esforçando para transmitir as dores da personagem e carregando o filme nas costas mesmo com um roteiro que pouco ajuda. Já Paul Sparks surge como um ponto destoante, com uma atuação que parece que saiu de uma sátira de terror, incluindo até referências a Superman.
The Mortuary Assistant é particularmente frustrante, não por ser apenas mais um filme de terror genérico de possessão e exorcismo que aparece toda semana, mas por ser, além disso, uma adaptação de videogame. É ver um jogo interessante, com potencial para muito mais, ser desperdiçado como um filme descartável neste mês de abril.
Sim, adaptações de videogame hoje em dia parecem levar mais a sério o material base, mas The Mortuary Assistant prova que ainda existe um longo caminho pela frente, um em que os realizadores precisam entender que apenas ter os elementos, nomes de personagens e cenários dos jogos não é desculpa para não construir um roteiro que conecte tudo isso de forma minimamente coesa.
Nota; 2/5
Direção: Jeremiah Kipp
Elenco: Willa Holland, Paul Sparks, John Adams
Análise feita por Bruno Sá