Análise | ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ é um grande terror preso às convenções do gênero

Não é sempre que vemos um filme de terror entre os lançamentos mais aguardados do ano, e não é à toa. Baseado em uma das creepypastas mais conhecidas da internet, Backrooms: Um Não-Lugar nasce de uma lenda que surgiu em fóruns online por volta de 2019 com apenas uma única imagem: um corredor vazio, de paredes amareladas e iluminação desconfortável, acompanhado de uma descrição sobre uma espécie de dimensão paralela infinita, sem origem e sem explicação.

O que começou apenas como uma foto acompanhada de um pequeno texto rapidamente se transformou em um fenômeno da internet, ganhando teorias, diferentes andares e camadas discutidas até hoje.

Com diversos curtas e games baseados no mito original, os fãs ansiavam por uma adaptação para os cinemas. Produzido pela A24 e dirigido pelo jovem cineasta Kane Parsons, Backrooms: Um Não-Lugar recria com primor o universo, a tensão e o desconforto que tornaram a lenda tão popular, entregando um baita terror psicológico no processo. Entretanto, seu impacto acaba limitado por um terceiro ato genérico que se rende a praticamente todas as convenções possíveis do gênero.

Backrooms: Um Não-Lugar terá evento de exibição antes da estreia oficial - CinebuzzA trama acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que descobre uma misteriosa passagem no porão de sua loja. Conforme adentra o labirinto de salas sem sentido ou lógica, seu psicológico começa a ser cada vez mais afetado, envolvendo sua terapeuta Mary (Renate Reinsve) em revelações que colocam em jogo tudo aquilo em que acreditam, e principalmente se eles realmente estão sozinhos naquele lugar abandonado.

Meu maior medo em relação a essa adaptação era justamente sua atmosfera. Em uma era dominada pelo TikTok e pelo consumo rápido de conteúdo, eu temia que o projeto trocasse o silêncio desconfortável da lenda original por sustos baratos, gritos e perseguições genéricas. E, felizmente, isso não acontece aqui, pelo menos não no começo.

Logo que Clark adentra o labirinto, a sensação de desconforto é imediata. O que inicialmente parecem apenas corredores vazios rapidamente se transforma em um espaço que desafia qualquer lógica conhecida: cadeiras presas nas paredes, portas no teto, salas que parecem mudar de lugar constantemente. Com um trabalho de construção de sets absolutamente espetacular, os cenários não apenas ganham vida, como por si só já seriam suficientes para assustar e justificar a ida ao cinema. Mas toda essa atmosfera funciona ainda melhor graças aos seus dois protagonistas.

Backrooms: Um Não-Lugar - Cinema | Agenda Sorocaba

Através de Clark e Mary, a trama explora temas como repetição, trauma e o medo constante de mudar. E acredito que seja justamente aí que mora a força da lenda original: não apenas em seu mistério inexplicável, mas na liberdade que ele oferece para que diferentes realizadores explorem o conceito através de suas próprias regras e interpretações. Ao seguir um caminho mais psicológico, o filme aumenta sua tensão a cada minuto, transformando o próprio vazio das Backrooms em algo sufocante.

E aqui preciso destacar o trabalho de Chiwetel Ejiofor. O ator transmite com perfeição a lenta deterioração mental de Clark, especialmente através de seu olhar, que se torna cada vez mais vazio conforme o personagem é sugado pelo labirinto.

Backrooms: Um Não-Lugar' terá sessão antecipada da Spoiler Night em São Paulo e no Rio de Janeiro - Capivara Alternativa

Isso tudo já seria o suficiente: o mistério sem explicação, os paralelos psicológicos, o desconforto constante. Entretanto, Backrooms: Um Não-Lugar simplesmente não confia o bastante no próprio público e quase coloca tudo a perder em seu terceiro ato.

E acho interessante como certos problemas de adaptação não pertencem apenas a uma mídia específica. É algo que vemos constantemente em adaptações de games, livros e creepypastas: a necessidade quase obsessiva de explicar o inexplicável. Em determinado momento do longa, a perspectiva do protagonismo muda e o filme simplesmente desmorona ao se render completamente a todas as convenções possíveis do terror moderno.

Ao não confiar que o público estaria satisfeito apenas com o desconforto e o mistério, o roteiro, que a essa altura já deveria ter acabado, decide verbalizar todas as suas reflexões e até tentar explicar as próprias Backrooms. E a cereja do bolo é justamente aquilo que eu mais temia: um monstro genérico de CGI aparecendo quase como obrigação, apenas para o filme poder dizer que “tem uma criatura”.

Renate Reinsve entra nos corredores sem fim de 'Backrooms: Um Não-Lugar'

O mais frustrante é que isso não destrói completamente a experiência. Ainda é um bom terror, um filme que vale a ida ao cinema e entrega momentos genuinamente sufocantes. Mas limita demais aquilo que poderia facilmente ser um dos grandes destaques do gênero no ano, transformando algo único em apenas “mais um” terror com decisões estranhas, como usar CGI em um filme que funciona justamente porque mais da metade de sua atmosfera é construída através de efeitos práticos e cenários reais.

Hollywood ainda parece não compreender que certas histórias funcionam justamente porque não possuem respostas. O medo habita o inexplicável. Habita o vazio. Está naquela sensação de olhar para as estrelas durante a noite e temer que talvez exista algo lá fora… algo que não compreendemos. E o mesmo vale para as Backrooms. O terror nunca esteve necessariamente nos monstros, mas sim no desconforto constante, na solidão e principalmente na sensação de que talvez não estejamos sozinhos naquele lugar impossível.

Horror Fans Are Already Connecting BACKROOMS Movie Posters to Deep Internet  Lore — GeekTyrant

Entre erros e acertos, Backrooms: Um Não-Lugar deve agradar aqueles que sempre sonharam em ver o mito ganhando vida nos cinemas, representando seus cenários sufocantes e sua tensão com enorme competência. Ainda assim, o longa provavelmente também vai decepcionar quem carregava expectativas mais altas sobre o potencial dessa adaptação.

Porque, no fim das contas, temos aqui um bom filme de terror, e talvez justamente aí esteja a principal discussão que o longa deixa daqui para frente: valia a pena adaptar uma creepypasta com um potencial tão único apenas para transformá-la em “mais um” bom filme de terror?

Nota: 3/5

Direção: Kane Parsons

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia

Análise feita por Bruno Sá

Deixe seu comentário

Leia também