Ambientado na Rússia, em meio à invasão da Ucrânia, Minotauro acompanha Gleb (Dmitriy Mazurov), um empresário bem-sucedido que vive um cotidiano confortável ao lado da esposa, Galina (Iris Lebedeva), e do filho adolescente. Sua estabilidade começa a desmoronar quando ele passa a suspeitar que Galina mantém um caso extraconjugal. Neste exato momento autoridades locais pressionam Gleb selecionar funcionários de sua empresa para serem enviados à guerra, adicionando mais pressão ao seu dia-a-dia.
O ritmo de Minotauro é gradual, quase como se estivéssemos acompanhando a vida comum de pessoas que simplesmente acordam, trabalham, conversam, fazem refeições e tentam resolver os problemas da rotina. A narrativa não tem pressa em conduzir o espectador até os momentos de maior tensão, permitindo que os conflitos se desenvolvam por meio de situações aparentemente banais. Essa escolha pode exigir paciência, mas é justamente nela que o filme encontra boa parte de sua força: a sensação de que estamos observando uma realidade em funcionamento, na qual a violência e a corrupção não surgem como grandes acontecimentos isolados, mas como elementos que já fazem parte da lugar-comum.
Visualmente, o filme é belíssimo. A fotografia de Mikhail Krichman trabalha com enquadramentos que frequentemente surpreendem, inclusive em momentos de diálogos aparentemente triviais. Há conversas que parecem acontecer de maneira espontânea, quase como se a câmera tivesse encontrado aquelas pessoas por acaso, mas a composição dos planos revela uma construção visual muito cuidadosa. Zvyagintsev encontra interesse cinematográfico em situações que, nas mãos de outro diretor, poderiam parecer apenas registros de uma conversa qualquer. E o mais interessante é que essa elaboração nunca parece chamar atenção para si mesma: a beleza dos enquadramentos está justamente na naturalidade com que eles integram a narrativa.
O diretor também demonstra um controle admirável do tom. Minotauro não exagera em praticamente nada: não transforma seus conflitos em grandes espetáculos, não recorre a explosões emocionais gratuitas e tampouco abandona sua postura contemplativa quando a história se aproxima de momentos mais tensos. É um filme que confia na inteligência do espectador e deixa que suas camadas políticas apareçam aos poucos, algo que certamente vai espantar o público mais inquieto. E é especialmente no desfecho que essa postura ganha um significado maior: por trás da crise pessoal de Gleb, existe uma crítica bastante contundente às elites que vivem protegidas por seus privilégios e parecem incapazes de enxergar qualquer coisa além dos próprios interesses. A tragédia coletiva está acontecendo, mas essas pessoas continuam preocupadas com a manutenção de seus pequenos mundos particulares. É uma mensagem que pode passar despercebida por quem espera uma denúncia mais explícita, mas que dá ao filme uma dimensão política muito mais amarga.
Nota: 4/5
(Assistido no Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
Direção: Andrey Zvyagintsev
Elenco: Dmitriy Mazurov, Iris Lebedeva