Toda vez que o ano vira, podemos ter certeza de uma única coisa: entre os meses de março e maio, a Amazon Prime nos abençoará com uma nova temporada de Invencível. Pelo menos, é isso que vem acontecendo desde a segunda temporada, em 2024, quando a série adotou um formato anual para seus lançamentos. E, apesar dessa decisão ainda impactar a qualidade da animação, o mesmo não pode ser dito da narrativa, que continua a aumentar os riscos, amadurecer seus personagens e provar que, a essa altura do campeonato, o lançamento de uma nova temporada de Invencível já é um evento na cultural.
Após os eventos da terceira temporada, o mundo ainda se recupera da destruição causada pelas versões alternativas de Mark Grayson (Steven Yeun) e de seu confronto contra Conquista (Jeffrey Dean Morgan ). Mas, apesar das feridas da humanidade, as de Mark são ainda mais profundas, lidando com as consequências de seus atos e o medo de se tornar igual a seu pai, Omni-Man ( J.K. Simmons). Enquanto tenta lidar com tudo, Mark se vê arrastado ao lado da Coalizão de Planetas para o confronto final contra os Viltrumitas, liderados por Thragg (Lee Pace), um embate que pode mudar para sempre o destino do universo.
Existem séries em que é até estranho pensar que são recentes, dado seu impacto cultural, esse com certeza é o caso de Invencível, que estreou em 2021, sendo uma adaptação da HQ lançada originalmente entre 2003 e 2018, com história de Robert Kirkman, que eventualmente também viria a criar The Walking Dead, e arte de Cory Walker e Ryan Ottley. A série da Amazon Prime Video surge no auge da “fadiga” do gênero de super-heróis, quando histórias de personagens encapuzados já não cativavam como antes, e, ainda assim, conseguiu um sucesso arrebatador. Mas por quê? Qual o diferencial de Invencível?
Temos aqui uma obra que não tem medo de desacelerar, explorar o psicológico e a complexidade de seus personagens e estabelecer ganchos que deixam o público ansioso pelo que vem a seguir, e nada disso fica mais claro do que nesta quarta temporada, que traz o clímax do maior arco da série até então: a Guerra Viltrumita.
Iniciada na primeira temporada, através da traição de Omni-Man, sabemos que os Viltrumitas são a maior ameaça do universo e que, mesmo em pequeno número, são capazes de dizimar espécies inteiras. E, conforme tememos a iminente ameaça do confronto final contra eles, também tememos o estado psicológico de Mark Grayson. Ao contrário de outros protagonistas em histórias de super-heróis, o poder de Mark carrega um peso com o qual ele não consegue lidar. A trama mostra que cada uma de suas batalhas é destrutiva, tira vidas e faz com que pessoas sofram por sua causa, mesmo que suas intenções sejam boas. Mark precisa tomar decisões difíceis, mesmo que isso signifique sujar as mãos em nome do bem maior.
O destaque da temporada é, com certeza, Omni-Man, que, após toda a destruição, morte e sofrimento que causou, se vê em um arco de redenção, lutando contra sua própria espécie. Ao contrário de outras obras, Invencível leva as consequências de tudo muito a sério, e em nenhum momento Nolan é retratado como um herói, mas sim como um pai buscando ser melhor, mesmo que possa ser tarde demais. Sua relação com Allen (Seth Rogen) funciona como o gancho cômico da temporada, enquanto sua relação com Oliver (Christian Convery) e Mark segue sendo o aspecto emocional.
E a animação? Bom… esse sempre vai ser o calcanhar de Aquiles de Invencível. Ao adotar o formato de temporadas anuais, fica claro que a série corta custos em uma cena ou outra, reutilizando alguns loopings de animação em múltiplos momentos.
No caso de outros projetos, isso poderia ser o suficiente para quebrar a imersão, mas aqui não é o caso. Percebo que a Amazon opta por caprichar nos episódios que exigem embates mais elaborados e usa isso ao seu favor, trocando combates desnecessários por momentos tensos, onde os personagens tentam resolver os conflitos no diálogo antes de iniciá-los. Isso também evidencia a evolução e o amadurecimento dos personagens, porque, convenhamos: quem imaginaria ver o Omni-Man tentando resolver algo no diálogo?
Invencível continua a surpreender, mostrando que seu diferencial está na densidade de seus confrontos e nas consequências, sem medo de desafiar o público e elevar os riscos e a tensão a cada momento. A Guerra Viltrumita pode ter chegado ao fim, mas vocês mal podem imaginar o que vem a seguir…
Nota: 4/5
Direção: Dan Duncan, Shaun O´Neil, Tanner Johnson, Stephanie Gonzaga, Sol Choi
Elenco: Steven Yeun, Sandra Oh, J.K. Simmons, Chris Diamantopoulos, Walton Goggins, Gillian Jacobs,Seth Rogen
Análise feita por Bruno Sá