Assim como muitas culturas descrevem de maneiras diferentes o próprio eclipse em si, versões moldadas por suas crenças e visões de mundo, o mesmo vale para a violência, mais especificamente a violência de gênero. Para algumas mulheres, a violência, seja física ou psicológica, começou dentro de casa, nas mãos daqueles que deveriam lhes trazer segurança. Para outras, foi um rosto amigável na rua, um “bom dia” que rapidamente se tornou uma forma de perseguição e opressão quando não correspondido da maneira esperada.
O mais novo longa Eclipse, da diretora Djin Sganzerla, expõe uma verdade simples: abusadores se escondem nas sombras durante o dia e, muitas vezes, seguem padrões que não queremos enxergar. Mas basta tirar os óculos e olhar de forma atenta para ver esse castelo de cartas desmoronar.
Cleo (Djin Sganzerla) é uma astrônoma bem-sucedida com uma gravidez em andamento, mas sua vida ganha novos contornos com a chegada de sua meia-irmã Nalu (Lian Gaia). A convivência entre elas reacende memórias perturbadoras, levando Cleo a enxergar sua vida com outros olhos em uma investigação que mergulha até as camadas mais profundas da deep web.
Sganzerla encara uma missão dupla aqui, não apenas dirigindo, mas também atuando no papel principal, e ela carrega todo esse peso com primor. Vemos a vida de Cleo virar do avesso aos poucos, com seu estado físico e psicológico sendo drasticamente afetados em uma narrativa carregada de crueldade e momentos que realmente deixam o espectador de coração partido.
O longa leva o aspecto de thriller psicológico ao pé da letra, aumentando gradualmente os riscos a cada novo passo da investigação de Cleo, que passa a perceber sinais perturbadores em seu marido aos quais antes fazia vista grossa. Existe uma constante sensação de desconforto conforme a personagem mergulha cada vez mais fundo nessa realidade.
Através de Nalu, o filme também traz seu aspecto cultural, com a personagem sendo uma indígena. Eclipse explora uma violência que não separa origem, gênero ou até idade, uma violência que acontece à luz do dia. O longa demonstra a força da união entre mulheres de diferentes origens diante desse ciclo de abuso e opressão.
O longa carrega sua ambição e seus temas em todos os momentos, mesmo quando a narrativa parece estranhamente tumultuada. Pensem em uma mala de viagem: conforme vamos colocando roupas, ela vai ficando pesada, e chega um momento em que precisamos retirar algumas coisas para diminuir o peso. Mas isso não acontece aqui.
Sua infinidade de ideias, somada a um filme que em determinados momentos parece não saber exatamente a qual gênero pertence, transforma Eclipse em uma obra sobrecarregada. Sim, seu tema principal se sustenta por conta própria, mas o longa parece não confiar totalmente nisso, se agarrando a toda e qualquer ideia que encontra pelo caminho e se recusando a abrir mão delas.
Isso resulta em um final que, apesar de chocante e realmente um soco no estômago do espectador, acaba parecendo apressado e sem o devido peso de suas consequências.
No fim, o longa deixa uma pergunta ao público: realmente conhecemos aqueles que estão ao nosso lado? Eclipse funciona como um alerta sobre abusadores presentes onde menos se espera e, apesar de aparentar uma constante luta por fôlego em sua própria narrativa e duração, seu tema central é forte o suficiente para chocar, conscientizar e permanecer com o espectador muito tempo após o fim da sessão.
Nota: 3/5
Direção: Djin Sganzerla.
Elenco: Djin Sganzerla, Lian Gaia, Sérgio Guizé, Luís Melo, Selma Egrei, Clarisse Abujamra.
Análise feita por Bruno Sá