Antes mesmo da “fadiga” do gênero de super-heróis se tornar um sintoma conhecido, Demolidor já era uma série que fugia completamente da fórmula. Enquanto o mundo estava deslumbrado com o primeiro grande crossover do Universo Cinematográfico da Marvel, em 2012, na forma de Os Vingadores, a série Demolidor surgia na Netflix em 2015 com uma proposta completamente diferente: uma obra voltada para o drama e ação, sobre um advogado vítima de um acidente que o cegou, levando justiça para Hell’s Kitchen dentro e fora dos tribunais.
Demolidor trazia uma visão fria e realista, refletindo injustiças presentes em nosso mundo contemporâneo. Enquanto os Vingadores lutavam contra exércitos de robôs, Matt Murdock (Charlie Cox) lutava para manter seus valores intactos em meio a um sistema corrupto e opressor. Bom, já não estamos mais em 2015. O MCU já não é mais o mesmo e a Disney criou seu próprio serviço de streaming na forma do Disney+ em 2019, encerrando a era das séries da Marvel em parceria com a Netflix e cancelando Demolidor após três temporadas. Mas claro, com o enorme sucesso e popularidade da série, o personagem retornaria, o que deixou muitos fãs preocupados sobre a capacidade da Disney de manter o mesmo estilo de narrativa.
A primeira temporada de Demolidor: Renascido estreou em 2025 após uma produção longa e conturbada, marcada por demissões de showrunners, troca de roteiristas e episódios inteiros sendo refeitos. O resultado? Apesar de ter seus momentos, especialmente a brutalidade envolvendo o vilão Muse (Hunter Doohan), e trazer personagens favoritos de volta, como Justiceiro (Jon Bernthal) e Wilson Fisk (Vincent D´Onofrio) , no fim das contas parecia uma temporada de remendos, onde muitos arcos narrativos existiam apenas como promessas para o futuro. Muito se duvidava se ainda havia combustível suficiente para engatar uma segunda temporada.
Demolidor: Renascido retorna em um segundo ano intenso, violento e que prova que o Demônio de Hell’s Kitchen é mais essencial do que nunca em uma trama que choca por sua atualidade.
O prefeito Fisk coloca Nova York sob toque de recolher e manda sua força-tarefa anti-vigilantes caçar não apenas os heróis mascarados, mas também todos que se atrevam a se colocar contra seu reinado. Enquanto a violência policial continua a aumentar nas ruas, Matt Murdock, Karen Page (Deborah Ann Woll) e Jessica Jones (Krysten Ritter) formam uma resistência e partem para um conflito que pode devolver o poder ao povo e mudar para sempre o destino da cidade.
Admito, a segunda temporada tinha um trabalho difícil em mãos. Não estamos falando apenas de ser sequência de uma temporada pra lá de conturbada, mas também de trazer novidades para esses personagens e seus conflitos. Pegue Matt Murdock e Wilson Fisk, por exemplo: enquanto esse confronto foi amplamente explorado durante as três temporadas da série sob o reinado da Netflix, a primeira temporada de Demolidor: Renascido trouxe novamente essa rivalidade ao centro, sem apresentar muitas novidades à dinâmica entre os dois.
Por sua vez, aqui, na segunda temporada, a série demonstra total consciência da repetição desses embates e opta por uma abordagem diferente: um confronto ideológico. Não temos aqui uma abundância de cenas de ação, mas sim trocas tensas em ambientes pequenos, onde o mais fraco é sempre a presa. O roteiro busca chocar o espectador não através de confrontos corpo a corpo, mas ao demonstrar como a justiça pode ser manipulada em prol daqueles que estão no poder.
O aspecto mais inteligente da segunda temporada é transformar a cidade de Nova York em seu próprio personagem. Vemos a cidade se deteriorando, vemos a violência tomando as ruas e acompanhamos toda a comunidade se unindo para reagir. Temos aqui uma narrativa em que o povo, cansado de esperar pelo resgate de falsos ídolos, decide finalmente se levantar e se impor. A série não é nem um pouco sutil, buscando traçar paralelos com o cenário político dos Estados Unidos nos últimos anos e a forte repressão policial em torno da população, justamente as pessoas que deveriam ser protegidas.
Matt quer provar que a lei funciona, que a justiça funciona, mesmo que isso signifique perder aqueles que mais ama. Enquanto o embate entre Murdock e Fisk continua sendo o centro da narrativa, as subtramas surpreendem ao apresentar outras faces da luta pelo destino da cidade. Personagens amplamente criticados pelos fãs, como Heather (Margarita Levieva) e Daniel (Michael Gandolfini), retornam com novas camadas, explorando o impacto psicológico da violência na mente daqueles envolvidos nesse conflito, mesmo que esses nunca cheguem a sujar diretamente as próprias mãos.
As cenas de ação, como eu disse, ficam em segundo plano, mas ainda tentam trazer a qualidade das coreografias e sequências da época da Netflix. Conseguem? Não. Sinto que a série ainda parece plástica nesse aspecto, com os movimentos e impactos simplesmente não tendo o mesmo peso que costumavam ter. Isso não significa que não existam bons momentos, como a união entre Demolidor e Espadachim (Tony Dalton) durante a fuga da prisão.
Demolidor sempre foi o personagem mais realista da Marvel, utilizado para contar histórias que trazem críticas ao governo, abuso de poder, manipulação e outras questões sociais. A segunda temporada da série entende isso e não tem medo de colocar o herói em situações que desafiam a percepção do público sobre o estado atual do mundo e de seus governantes.
O segundo ano de Demolidor: Renascido prova que o Demônio de Hell’s Kitchen está aqui para ficar e, apesar de ainda precisar de algumas correções, finalmente parece que os realizadores estão deixando a sombra da série da Netflix para trás em busca de trilhar um novo caminho para o futuro.
Nota: 3,5/5
Direção: Justin Benson e Aaron Moorhead
Elenco: Charlie Cox, Vincent D´Onofrio, Deborah Ann Woll, Margarita Levieva, Ayelet Zurr e Wilson Bethel
Análise feita por Bruno Sá