Análise | ‘Dia D’ olha para as estrelas, mas teme o desconhecido

Existe vida fora da Terra? Essa é uma das maiores perguntas da humanidade. Desde relatos de avistamentos e abduções até o Caso Roswell, em 1947, quando supostamente um disco voador caiu próximo a um rancho no Novo México, além dos mistérios em torno da Área 51, o tema capturou o imaginário de milhões de pessoas ao redor do mundo e gera debates até hoje.

O fascínio da humanidade pelo que existe além das estrelas também deu origem a alguns dos filmes de maior sucesso da história. De Independence Day (1996), dirigido por Roland Emmerich, até A Chegada (2016), de Denis Villeneuve, o tópico dos alienígenas já passou por diversos gêneros e pelas mãos de inúmeros diretores, mas poucos são tão apaixonados pelo tema quanto Steven Spielberg. Com clássicos como E.T. – O Extraterrestre (1982) e Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Spielberg encantou gerações com histórias que ousavam questionar a ideia de que não somos o centro do universo, entregando alguns dos melhores trabalhos de sua filmografia. Com o passar dos anos, o público passou a clamar por um retorno do diretor ao tema e a um blockbuster clássico de alienígenas, mas Spielberg tinha ambições maiores. Tendo trabalhado extensivamente com o assunto, o que ele poderia acrescentar desta vez?

Dia D surge com uma proposta inicialmente mais pé no chão do que seus outros trabalhos envolvendo vida extraterrestre, buscando explorar, em escala global, como seria se toda a humanidade descobrisse de uma só vez a existência de vida fora da Terra e, mais do que isso, o filme questiona como essa revelação mudaria nosso cotidiano e qual seria a responsabilidade de lidar com uma informação dessa magnitude, afinal, o público realmente precisaria saber?

Sendo um dos filmes mais aguardados do ano, Dia D agrada ao retornar à fantasia e ao imaginário dos alienígenas em um blockbuster divertido. No entanto, seu excesso de conveniências narrativas e soluções fáceis impede que o longa seja algo além de mais um filme de Spielberg, que aqui parece estar operando no piloto automático.

Disclosure Day Review RoundupA jornalista Margaret Fairchild (Emily Blunt) vê sua vida virar de ponta-cabeça após apresentar um comportamento estranho ao vivo durante um telejornal. Confusa e sem saber o que fazer, seu caminho cruza com o de Daniel Kellner (Josh O’Connor), um homem que afirma possuir informações capazes de comprovar a existência de vida alienígena.

Caçados por Noah Scalon (Colin Firth) e sua agência, cujo objetivo é manter essa informação em segredo, os dois passam a questionar o impacto dessa descoberta para a humanidade enquanto embarcam em uma jornada cercada de revelações e mistérios, que mostra que sua conexão vai muito além do que imaginavam.

Spielberg detalha “Disclosure Day” e marca retorno à ficção científica alienígena após 21 anosDia D é muito mais próximo de Contatos Imediatos do Terceiro Grau do que de E.T.. Spielberg busca retratar uma sociedade instável unida por uma descoberta capaz de abalar nosso próprio senso de existência. Para isso, sua ambientação é mais pé no chão, acompanhando personagens comuns que se veem envolvidos em algo muito maior do que eles mesmos.

O diretor moderniza o tema ao transportá-lo para uma época marcada por divisões, inseguranças e conflitos constantes, uma realidade que parece ter perdido a capacidade de olhar para as estrelas e imaginar o desconhecido. Embora exista, sim, fantasia e tensão decorrentes dessa revelação, o longa é, na visão do próprio Spielberg, uma reflexão sobre como uma causa maior pode aproximar pessoas que passaram tempo demais olhando apenas para suas diferenças.

Visualmente, o filme mira no imaginário popular. Enquanto, ao longo das décadas, cada obra apresentou sua própria interpretação de vida extraterrestre, inclusive o próprio Spielberg, aqui o diretor aposta em uma abordagem mais clássica. A construção para a revelação dos seres e de sua tecnologia é mágica justamente por saciar uma curiosidade quase infantil: a de finalmente ver um alienígena diante dos nossos olhos. Como essa revelação acontece de forma gradual, o longa também encontra espaço para cenas de ação e perseguições bem executadas, que ajudam a sustentar seu ritmo acelerado. São quase duas horas e meia que passam voando.

Disclosure Day' Review: Emily Blunt in Spielberg's Satisfying Sci-FiEmily Blunt é o grande destaque do filme. À medida que sua vida é impactada pelos acontecimentos, Margaret começa a despertar habilidades que não compreende, e a atriz transmite muito bem o conflito interno da personagem entre a negação do desconhecido e a curiosidade de descobrir qual é o seu propósito. Josh O’Connor, como Kellner, surge mais determinado desde o início, disposto a seguir adiante com a revelação, mas o personagem também carrega o peso da responsabilidade sobre a informação que possui.

Uma das maiores surpresas do longa é Jane (Eve Hewson). Antiga noviça criada em um convento, ela se vê no centro de uma narrativa que coloca suas próprias crenças à prova. É por meio dela que Spielberg introduz o componente religioso da história, um dos temas mais interessantes do filme e ao qual voltarei mais adiante.

Disclosure Day ending explained: What does the alien whisper in Daniel's ear? | GamesRadar+Quando os primeiros acordes da trilha começaram a tocar, reconheci imediatamente John Williams. O lendário compositor retorna e, aos 94 anos, prova que a idade não diminuiu em nada seu talento. Sua trilha é mágica e encantadora, transformando até os momentos mais simples em algo memorável, despertando no espectador a mesma sensação de maravilhamento de uma criança e entregando um dos melhores aspectos de todo o projeto.

A partir de agora, caro leitor, vou entrar no aspecto mais polêmico desta análise. Veja bem, assim como qualquer outra pessoa neste planeta, eu sou apaixonado pela filmografia de Spielberg. Alguns de seus filmes estão entre os meus favoritos de todos os tempos. Entretanto, preciso dizer: Dia D é o filme mais covarde de sua carreira e um projeto com uma profunda crise de identidade.

Disclosure Day' star Josh O'Connor shares Spielberg's accidental text : NPRComo eu disse anteriormente, o longa se vende como uma reflexão sobre como a humanidade reagiria, em escala global, à confirmação da existência de vida extraterrestre e isso simplesmente não acontece. O marketing e as entrevistas promovem esse aspecto mais realista e quase sociológico da premissa e, embora vejamos a informação passando por diferentes núcleos, o filme se apequena ao jamais mostrar o verdadeiro peso de suas consequências.

Diante disso, o roteiro parece mudar de direção e passa a questionar a responsabilidade de quem possui essa informação. Ela deveria ser revelada? Como afetaria a maneira como enxergamos a religião? O sentido da vida mudaria? Através de Jane, o filme apresenta essas questões, apenas para abandoná-las logo em seguida. Spielberg claramente queria fazer um filme de alienígenas diferente daqueles que já realizou, mas também não queria abrir mão da magia e do espetáculo que marcaram sua carreira. O resultado é uma narrativa incapaz de se aprofundar em qualquer um dos dois caminhos.

Steven Spielberg's First Sci-Fi Movie in 8 Years Officially Praised as a Near-Perfect ReturnPara preservar o encanto da aventura, o roteiro recorre constantemente a conveniências e facilitadores que evitam qualquer confronto real com seus próprios temas. Os personagens estão em dúvida sobre seu propósito? Basta ligar para alguém que verbaliza a resposta em voz alta. Uma personagem está questionando sua fé? Basta uma conversa rápida com uma freira que não questiona absolutamente nada, e o assunto morre ali. Os protagonistas estão separados? Surge um artefato capaz de fazer exatamente o que o roteiro precisa naquele momento, sem qualquer construção ou consequência.

O que mais me chamou atenção foi a maneira como o filme levanta discussões sobre informações sigilosas que deveriam ser de conhecimento público, desde descobertas revolucionárias até torturas e abusos de poder. Ainda assim, Spielberg cria uma agência misteriosa e faz questão de enfatizar repetidamente que ela não possui vínculos governamentais. É uma escolha que parece existir apenas para evitar qualquer confronto direto com o governo americano, mesmo quando a narrativa claramente aponta nessa direção.

A partir da segunda metade, Dia D abandona quase completamente suas ambições iniciais e se entrega ao espetáculo e ao fascínio da descoberta. É como se Spielberg tivesse mudado de ideia no meio do caminho, receoso de que o filme estivesse denso demais e distante do espírito aventureiro que define tantos de seus clássicos. O problema é que, ao fazer isso, o longa entrega alguns de seus melhores momentos visuais, mas falha em cumprir as promessas que ele mesmo estabelece, optando repetidamente pelo caminho mais fácil quando confrontado por suas próprias perguntas.

Disclosure Day final trailer features Spielberg himself - Ars TechnicaDia D abre a temporada de verão americano nos cinemas como um clássico blockbuster pipoca, repleto de mistérios, ação e coração, mesmo que não tenha sido vendido dessa forma. Com uma trilha impecável, belos visuais e ótimas atuações, o filme consegue entreter do início ao fim e Spielberg prova mais uma vez que ainda possui uma capacidade quase única de encantar o público e levá-lo aos cinemas para sonhar com o impossível. O problema é que, desta vez, falta coragem para ir além do óbvio e, no fim, fica a sensação de que havia uma obra muito mais interessante escondida sob um roteiro que precisava de mais uma revisão e de um diretor disposto a assumir mais riscos.

Nota: 3/5

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Eve Hewson, Colin Firth, Colman Domingo, Wyatt Russel, Elizabeth Marvel

Análise feita por Bruno Sá

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