O Brasil tem sido um verdadeiro queridinho dos cinemas ultimamente. Com sucessos como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e um favorito recente meu, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, o cinema brasileiro vem fazendo história tanto no circuito nacional quanto no internacional. Ainda assim, existia uma fronteira que nossa indústria ainda não havia ultrapassado: o formato IMAX.
O formato premium proporciona atualmente uma das experiências de áudio e imagem mais sofisticadas do mercado. Enquanto diversos filmes passam por conversões posteriores para serem exibidos nesse tipo de sessão, ainda faltava um projeto verdadeiramente nosso, feito inteiramente com câmeras IMAX. 2DIE4: 24 Horas no Limite chega justamente para quebrar essa barreira e, mesmo que o resultado final sofra com uma certa crise de identidade, o longa ainda representa mais uma vitória importante para o Brasil nos cinemas.
O documentário acompanha o piloto brasileiro Felipe Nasr durante a tradicional corrida das 24 Horas de Le Mans, na França. Uma disputa intensa de resistência onde equipes competem durante um dia inteiro em busca do pódio e onde pilotos entram para a história do automobilismo.
Desculpe se eu enganei vocês na introdução, eu também fui enganado. 2DIE4: 24 Horas no Limite é um documentário, ou pelo menos é assim que ele se vende. Acompanhamos Felipe Nasr durante a verdadeira corrida de Le Mans, vemos suas dificuldades, a correria de sua equipe e todo o desgaste gerado por uma prova tão intensa.
A equipe de produção, liderada pelos irmãos Salomão e André Abdala, acompanha Felipe diretamente dos bastidores, dentro do pit stop, enquanto posiciona câmeras IMAX de última geração do lado de fora do circuito. E olha, vou te falar: as filmagens em IMAX proporcionam algumas das sequências mais belas que já vi em uma sala de cinema nos últimos tempos, com destaque especial para as cenas captadas durante a noite, onde a única iluminação vem dos próprios faróis dos veículos.
A captação de som também merece destaque. Os carros são pesados, velozes, e cada vez que passam por uma das câmeras o impacto no público é intenso. Durante seus apenas 60 minutos de duração, 2DIE4: 24 Horas no Limite entrega uma experiência imersiva daquelas que fazem você sair do cinema querendo recomendar para amigos e família.
Agora, como o projeto interliga todas essas filmagens? Temos uma narração de Felipe Nasr durante toda a duração do documentário, além de algumas cenas roteirizadas para dar liga a determinadas passagens. E infelizmente é aqui que os problemas começam a aparecer.
Reparem que eu comentei que o projeto se vende como um documentário, inclusive em seu marketing. Entretanto, o longa sofre de uma crise de identidade severa durante toda a sua duração. Isso porque o filme quer transmitir a corrida, mas ao mesmo tempo quer construir uma narrativa, quase um arco de personagem para Felipe Nasr. E nesses momentos o aspecto documental acaba sendo deixado de lado, dando espaço para longas cenas contemplativas bem longe das pistas.
Quando retorna para a corrida, o filme muitas vezes utiliza apenas as filmagens de dentro do cockpit de Felipe e abre mão das grandes sequências em IMAX e dos planos mais abertos. Tudo isso torna o projeto confuso, porque em nenhum momento ele realmente se compromete a ser um documentário tradicional ou um filme com uma narrativa mais elaborada, ficando preso quase que em um limbo entre os dois formatos.
Com tudo isso, 2DIE4: 24 Horas no Limite é um filme difícil de definir, recomendar ou até explicar. É um projeto carregado de ambições e ideias, um experimento do tipo que vemos cada vez menos hoje em dia. 2DIE4: 24 Horas no Limite definitivamente não é para todo mundo, mas é uma experiência essencial para quem nunca assistiu a um longa em IMAX e quer entender o que o formato pode proporcionar quando um projeto é pensado desde sua concepção para esse tipo de exibição.
Sim, o resultado final possui problemas e talvez o maior deles seja justamente ser o primeiro, o primeiro filme a dar a largada e colocar o Brasil nas salas de formato premium ao redor do mundo.
Nota: 3/5
Direção: Salomão Abdala e André Abdala
Análise feita por Bruno Sá