Recentemente a comédia se tornou um dos gêneros mais difíceis de emplacar nos cinemas, principalmente para um público que se tornou cada vez mais exigente e que aguarda para ver o que vão falar da estreia da semana nas redes sociais, isso é ainda mais evidente quando falamos de paródias. Eu acredito que há dois motivos para isso: o primeiro é que basta abrir o Instagram ou o TikTok para encontrar uma paródia de absolutamente qualquer coisa de graça, e o segundo é que, por natureza, paródias tendem a ser bem específicas e exigir certo conhecimento do público, seja da atualidade ou do tópico em questão, para embarcar na brincadeira.
Lançado em 2000, Todo Mundo em Pânico foi um projeto que marcou uma geração. Em uma época na qual a internet ainda dava seus primeiros passos, o longa fazia piada com tudo e todos, principalmente com os filmes de terror contemporâneos. Também não posso deixar de mencionar o sucesso que o filme fez aqui no Brasil, em parte graças à sua dublagem fantástica, com vozes como Priscila Amorim, Duda Ribeiro e Manolo Rey, mas também ao seu enorme sucesso nas vendas de DVD.
Com o tempo, a franquia que era encabeçada pelos Wayans passou para outros realizadores e, quando chegou ao seu quinto filme, estrelado por Charlie Sheen em 2013, já havia perdido boa parte do seu fôlego, com piadas tentando desesperadamente causar algum tipo de impacto.
Treze anos depois, já estava na hora da franquia voltar, ainda mais considerando que nesse período não apenas o mundo mudou bastante, mas também sucessos do terror como Pânico 5 e 6, Pecadores e A Substância proporcionaram para a série um verdadeiro mar de possibilidades. Com o retorno dos Wayans, Todo Mundo em Pânico (2026) traz tudo aquilo que a franquia tem de melhor: é descarada, bocuda, cheia de farpas na língua e, apesar de sua metalinguagem às vezes ir longe demais, diverte na medida certa.
Após escaparem de um assassino mascarado suspeitosamente familiar, Shorty (Marlon Wayans), Ray (Shawn Wayans), Cindy (Anna Faris) e Brenda (Regina Hall) tornam-se alvos novamente enquanto lidam com o peso do próprio legado.
Eu me recordo de uma entrevista que li no ano passado na qual Marlon Wayans disse que o novo longa iria ofender todo mundo e, meu caro leitor, ele não estava brincando, de filmes de terror a sucessos recentes do streaming e da TV, passando até pela situação política dos Estados Unidos, o filme não poupa ninguém, e o melhor é ver a reunião dos atores no meio de tudo isso. Vindo de um roteiro que faz piada com clichês, reunir o elenco original para uma passagem de bastão simbólica em uma franquia também é um deles, e o filme, apesar de utilizar esse recurso, está muito ciente disso.
Anna Faris e Regina Hall divertem com seu reencontro, enquanto Marlon Wayans é o mesmo de sempre. Mas, para mim, é Shawn Wayans quem rouba a cena. Seu timing cômico é impecável e dá origem a algumas das melhores sequências do filme.
Eu disse no início deste texto que falei sobre o aspecto das paródias no cinema. Todo Mundo em Pânico faz sátira de tudo, entretanto isso também o transforma em uma cápsula do tempo. Explicando melhor: enquanto o filme original sustentava suas piadas em tiradas criativas e em parodiar cenas e franquias clássicas do terror, populares até hoje entre fãs do gênero, o longa de 2026 opta por um caminho um pouco diferente. Como eu disse, ele quer ir além do horror e do cinema, mas, por consequência, acaba nascendo datado.
Suas piadas dependem de conhecimentos muito recentes e não de referências universais, quase como se o roteiro tivesse sido escrito a partir dos assuntos que estavam em alta no Twitter. Isso é um problema para todos? Vamos lá, em comédia é natural que os projetos façam sátiras de seus contemporâneos, entretanto, e com o passar do tempo, isso torna mais difícil para um novo público se conectar com a obra, pois a piada já não significa mais nada.
Durante as primeiras entradas da franquia, Todo Mundo em Pânico criou suas próprias cenas memoráveis, momentos que até hoje marcam gerações. Aqui, porém, temos um filme criado para 2026 e apenas para 2026, o que reduz consideravelmente seu impacto a longo prazo.
Apesar de achar que o filme vai longe demais nesse aspecto, eu abro uma tangente para propor outro ponto: o mundo precisa de mais comédias como essa. Veja, em uma década tão polarizada, onde as pessoas mudam de opinião constantemente e a balança de poder parece pender para um lado diferente a cada minuto, o longa encontra sua comédia justamente na loucura, uma loucura que vivemos todos os dias e muitas vezes nem percebemos.
Não estou dizendo que Todo Mundo em Pânico é profundo, porque não é e nem tenta ser, mas saí da cabine com a sensação de que algumas de suas melhores sequências funcionam justamente porque parecem apenas uma segunda-feira comum na década em que vivemos.
Acho interessante que o filme brinque com isso, pois de alguma forma acaba provocando uma reflexão involuntária: o mundo está ficando louco ou eu apenas normalizei a loucura?
Todo Mundo em Pânico deve agradar ao público que procura uma comédia sem filtro e tem tudo para ser uma das grandes comédias de 2026. Apesar de sua narrativa ter uma clara data de validade, o carisma de seus atores, que parecem não ter envelhecido um dia sequer, dá conta do recado.
Nota: 3/5
Direção: Michael Tiddes
Elenco: Anna Faris, Marlon Wayans, Shawn Wayans, Olivia Rose Keegan, Dave Sheridan, Regina Hall, Jon Abrahams
Análise feita por Bruno Sá