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Crítica | O Escândalo ganha nas atuações mas perde muito ao não se arriscar

O Escândalo, Bombshell, consegue trazer um filme que mistura drama, comédia e thriller com grandes atuações embora o ritmo seja intenso e alguns cortes gerem dificuldade de compreender o desenrolar dos fatos.

Jay Roach, também responsável por Austin Powers, dirige o filme que tem como base a história real das denúncias de assédio sexual na Fox News, em especial contra seu CEO Roger Ailes (John Lithgow). A narrativa é contada a partir da perspectiva de Megyn Kelly (Charlize Theron), Gretchen Carlson (Nicole Kidman), apresentadoras reais do canal, e Kayla Pospisil (Margot Robbie) uma produtora criada para o filme representando uma série de outras funcionárias da emissora que também sofreram nesse contexto.

Megyn Kelly, advogada tornada âncora, acaba se vendo no olho do furacão em razão de seus questionamentos sobre as condutas de Donald Trump, na época dos fatos candidato a presidência dos EUA. Gretchen Carlson, é uma apresentadora que tenta negociar melhores condições de trabalho após tolerar anos de avanços inadequados por parte de seus companheiros de trabalho. Por fim, temos Kayla, uma jovem produtora conservadora que sonha em ir para a frente das câmeras.

 A história já fora explorada em diversos artigos do New York Times, no livro “The Loudest Voice in the Room” de Gabriel Sherman e em uma série da Showtime, “The Loudest Voice” com Russel Crowe no papel de Roger Ailes. Aliás, trata-se de um tema que também está sendo explorado na nova série da Apple TV, The Morning Show, que embora não explore diretamente os fatos, utiliza claramente como inspiração.

O roteiro de Charles Randolph, responsável por A Grande Aposta, inicialmente mostra um potencial satírico ao seguir Kelly em um tour pela emissora, apresentando todo o contexto do ambiente que será explorado nos próximos 108 minutos. Entretanto, o ritmo ousado logo é substituído por uma história linear comum sobre o desenrolar das denúncias no ambiente de trabalho, ora apresentando um tom cômico e em outras vezes trazendo um grande potencial dramático, combinação que exige de suas protagonistas e coadjuvantes e justifica a quantidade de indicações a prêmios nessa temporada. A caracterização em si já é de causar espanto, em especial Charlize Theron que consegue personificar Megyn Kelly.

O ritmo rápido impede que o filme se torne cansativo, mas também pode gerar confusão quanto as passagens de tempo e em alguns momentos parece que falta algo no meio da história. A ousadia inicial acaba sucumbindo a um formato comum de drama, perdendo um pouco de força ao longo da narrativa e se tornando um tanto simplista, inclusive na fotografia, o que fica nítido após buscar mais informações sobre as histórias reais por trás. Não é um filme que se arrisca.

O desejo de contar a história em menos de 2 horas acabou prejudicando a construção das personagens e esquecendo suas complexidades, por fim apenas Megyn consegue ter um pouco mais de profundidade, enquanto Grecthen segue apenas como um elemento que gera o estopim para as investigações. Já a personagem de Kayla acaba caindo no clichê da jovem conservadora, embora tenha conseguido trazer algumas cenas que justificam as nomeações de Margot Robbie ao prêmio de melhor atriz coadjuvante.

O filme infelizmente perde a oportunidade de explorar melhor o ambiente e a história, e não consegue expressar a dimensão da questão, as consequências na vida das personagens e o tamanho real do problema, uma vez que muitas pessoas estavam envolvidas no caso. Ele pega carona no “Me To” mas sem correr muitos riscos. Fica a dica para que o telespectador busque informações sobre o ocorrido antes ou depois de assistir ao filme.

O Escândalo estreia no dia 16 de janeiro, mas já conta com algumas exibições a partir desta quinta-feira. Verifique as salas.

  • Direção
  • Roteiro
  • Elenco
  • Fotografia
  • Trilha Sonora
3.6

Summary

O Escândalo traz grandes atuações e explora um tema de muita relevância, todavia não consegue ter a coragem de expor a fundo os problemas sistemáticos de abuso de poder nas grandes corporações e, em especial, no mundo do entretenimento.

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