Análise | ‘Toy Story 5’ encara uma realidade que não pode vencer

Como vocês se lembram da sua infância? Essa é uma pergunta que eu direciono especialmente às pessoas da minha idade. A cargo de curiosidade, meus caros leitores, eu nasci nos anos 2000 e estou bem no centro da Geração Z. Diferente de outras gerações, a minha viu a tecnologia invadir nossas casas em tempo real, gerando debates sobre o momento certo de entregar uma tela para uma criança e os perigos da internet, que muitas vezes amadurece jovens cedo demais.

Eu me recordo da primeira vez que joguei Angry Birds no primeiro Android da minha mãe e da primeira vez que entrei no Facebook apenas para jogar Dragon City. Entretanto, essas tecnologias ainda estavam se estabelecendo e não eram vistas como algo essencial na criação de uma criança. Eu mesmo só fui ganhar meu primeiro celular muitos anos depois, já na adolescência.

Se hoje tenho 22 anos e esse debate já existia lá por volta de 2010, imagine agora, com a tecnologia completamente integrada ao nosso cotidiano. Cyberbullying, influenciadores digitais, algoritmos e até inteligência artificial passaram a fazer parte da infância de milhões de crianças.

Como preservar a infância em meio a tudo isso? Principalmente depois da pandemia? É aí que Jessie e os brinquedos entram em ação.

Toy Story 5 retorna com talvez a melhor premissa de toda a franquia ao colocar os brinquedos diante das consequências da tecnologia em uma aventura divertida e emocionante, mesmo que nem sempre saiba exatamente o que fazer com essa ideia.

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Quando Bonnie (Scarlett Spears) começa a apresentar dificuldades para socializar com crianças de sua idade, seus pais decidem comprar uma Lilypad (Greta Lee), um tablet interativo repleto de atividades educativas e entretenimento infantil. Diante da nova tecnologia, Jessie (Joan Cusack) e os demais brinquedos passam a encarar uma dura realidade: talvez eles estejam se tornando ultrapassados.

À medida que a presença da Lilypad cresce na vida de Bonnie, os brinquedos se veem diante da possibilidade do fim de uma era. Em meio a essa crise de identidade, Jessie embarca em uma jornada rumo ao seu passado em busca de respostas e, principalmente, de um novo propósito.

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Trazer o conflito entre brinquedos e tecnologia para Toy Story é simplesmente a ideia perfeita. A franquia, que a essa altura já ultrapassa os 30 anos, sempre carregou mensagens sobre a importância de preservar a imaginação das crianças durante seu desenvolvimento. Portanto, no momento em que os brinquedos se deparam com essa nova realidade, o impacto é imediato. O filme encontra sua força justamente nesse ponto. Nos sentimos abalados por temer o destino de personagens que acompanhamos há décadas, mas ao mesmo tempo somos obrigados a encarar uma realidade cada vez mais presente.

Sendo o quinto filme da franquia e ambientado em uma realidade muito mais próxima da nossa, Toy Story 5 também marca uma importante transição de protagonismo. Woody (Tom Hanks) abre espaço para Jessie, que carrega a narrativa durante praticamente toda a duração do longa.

A mudança funciona porque permite acompanhar uma protagonista com novas inseguranças, dores e questionamentos. Enquanto Jessie tenta encontrar seu lugar em um mundo que evoluiu rápido demais, o filme explora como diferentes gerações lidam com a constante transformação da tecnologia e a sensação de se tornar obsoleto diante dela. É através de Jessie que o longa estabelece seu principal ponto: nenhuma tela é capaz de substituir conexões reais. Em um mundo movido por aparências, algoritmos e validação constante, ser você mesmo ainda é uma das coisas mais corajosas que alguém pode fazer.

Paralelamente, vemos o impacto dessa realidade em Bonnie. O filme não mede esforços para retratar seus conflitos internos e, mesmo com apenas oito anos, a personagem já precisa lidar com pressões e preocupações que parecem pertencer ao mundo dos adultos. Em uma sociedade que frequentemente exige maturidade precoce, sua inocência passa a ser constantemente colocada à prova.

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Como já é de praxe nas últimas entradas da franquia, o restante da turma de brinquedos não tem muito o que fazer na narrativa, ficando relegado principalmente a momentos cômicos e participações pontuais. Ainda assim, sua presença nas belíssimas sequências de brincadeira de Bonnie acaba sendo um dos grandes destaques do filme. Apesar de ser o Toy Story de menor escopo em termos de cenários, as cenas em que as crianças deixam a imaginação fluir estão entre as melhores de toda a franquia. Os animadores aproveitam esses momentos para extravasar criatividade, transformando brincadeiras simples em sequências visualmente encantadoras.

Woody (Tom Hanks) está de volta e, infelizmente, retorna mais para preencher espaço e aparecer nos materiais promocionais do que por uma necessidade real da história. Sua importância para a narrativa é praticamente nula e pouco acrescenta ao desenvolvimento dos temas centrais do filme. Ao lado de Buzz (Tim Allen), ele embarca em uma subtrama de resgate que, embora divertida, raramente encontra relevância dentro da jornada principal.

Ainda assim, Toy Story já está mais do que consagrado graças à força de seus personagens. Ver Woody, Buzz e toda a turma novamente em tela, interagindo entre si, continua sendo suficiente para arrancar um sorriso do nosso rosto.

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Lilypad entra facilmente como uma das antagonistas mais interessantes de toda a franquia. Sendo um tablet interativo criado para uma era digital, Lily foi programada com um único propósito: entreter e auxiliar Bonnie. E é justamente isso que torna o conflito tão interessante. A personagem não possui maldade ou intenções egoístas. Assim como os brinquedos, ela apenas deseja fazer Bonnie feliz.

Entretanto, diante de suas inúmeras funcionalidades, os brinquedos passam a enxergá-la como uma ameaça, iniciando um confronto que nasce muito mais do medo da substituição do que de uma rivalidade propriamente dita.

Também gostaria de destacar Conan O’Brien no papel de Smarty Pants, um dispositivo criado para auxiliar crianças durante o treinamento para usar o banheiro. Suas aparições rendem algumas das melhores piadas do filme e servem para introduzir mais uma reflexão interessante. Enquanto os brinquedos passam décadas acompanhando diferentes gerações, a tecnologia parece envelhecer cada vez mais rápido. Em um mundo onde tudo se torna obsoleto em poucos anos, talvez a vida útil de um tablet seja ainda menor do que a de um brinquedo.

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Ainda assim, não consegui deixar de lado um pensamento durante toda a sessão: Toy Story 5 chega tarde demais.

Após a pandemia, a tecnologia se estabeleceu no cotidiano das pessoas como nunca antes, especialmente na vida das crianças. Enquanto Toy Story 4, em 2019, falava sobre identidade e propósito, me pergunto se aquela não teria sido a época perfeita para abordar justamente esse conflito entre brinquedos e telas. Diante de uma questão grande demais para encontrar respostas definitivas, o roteiro acaba recorrendo a temas e ideias que a franquia já explorou anteriormente para chegar à sua conclusão.

Sim, Toy Story 5 emociona e impacta, mas também é impossível ignorar uma certa ironia. Afinal, estamos falando de um filme produzido por um estúdio que também vende, e continuará vendendo, produtos e tecnologias voltados para crianças. O longa levanta reflexões importantes, mas raramente está disposto a aprofundá-las além do necessário.

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De todas as sequências da franquia, este é o filme que mais me passa a sensação de ser uma entrada “filler”. E isso não é necessariamente algo ruim. Em séries e animes, alguns fillers estão entre os episódios mais divertidos justamente por contarem histórias menores, sem a obrigação de alterar permanentemente o universo ao seu redor. É exatamente o caso aqui. Ao contrário dos capítulos anteriores, Toy Story 5 não provoca grandes mudanças, não redefine personagens e nem deixa consequências significativas para o futuro da franquia. É divertido? Sem dúvida. Mas também é facilmente ignorável dentro da narrativa maior.

E isso me leva a outra questão. Segundo rumores, a Pixar já estaria trabalhando em um sexto filme. O que me faz perguntar: ainda existe uma história que realmente precisa ser contada? A franquia continua se sustentando graças à força de seus personagens e ao carinho que o público sente por eles, mas fica a dúvida sobre qual será o capítulo que finalmente quebrará essa impressionante sequência de qualidade.

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Toy Story 5 expõe uma realidade dura: estamos perdendo a magia da imaginação em um mundo que empurra as crianças cada vez mais cedo para um sistema baseado em desempenho, comparação e validação constante. O filme diverte, emociona e entrega mais uma boa aventura da Pixar, mas, assim como os próprios brinquedos da história, não consegui evitar a sensação de que talvez a era dessa franquia esteja finalmente chegando ao fim.

Nota: 3,5/5

Direção: Andrew Stanton

Elenco: Joan Cusack, Tom Hanks, Tim Allen, Greta Lee, Keanu Reeves, Annie Pots, Wallace Shawn, Ernie Hudson

Análise feita por Bruno Sá

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