Parece que foi ontem quando a primeira temporada de Stranger Things estreou na Netflix. Na época, eu estava no sétimo ano da escola e não se falava de outra coisa nas mesas do refeitório. Com o tempo, o público aumentou, e o hype, então, nem se fala, mas eu, particularmente, me tornei muito crítico da série por acreditar que ela havia perdido o que a tornava especial, principalmente a partir da terceira temporada. Ainda assim, continuei acompanhando. Parte disso vem do carinho pelos primórdios da série; outra parte, de uma esperança mal depositada. Já faz aproximadamente quatro meses desde que a quinta temporada chegou ao fim, encerrando a principal produção da Netflix com decepções e falsas promessas (sério, se você gosta da quinta temporada, reveja seus conceitos URGENTE).
Mas por que essa longa introdução? Porque Stranger Things retorna em seu primeiro spin-off direto para o streaming que, apesar de tentar resgatar os tempos áureos da série, não passa de uma tentativa desesperada da Netflix de recuperar a magia de um universo que, honestamente, já pede uma pausa.
Bem-vindos a Hawkins no verão de 1985. Após os eventos da segunda temporada (sim, segunda temporada), tudo parece calmo, até que uma nova ameaça surge e começa a raptar os habitantes da pequena cidade. Com o portal para o Mundo Invertido fechado, cabe a Eleven (Brooklyn Davey), Mike Wheeler (Luca Diaz), Dustin Henderson (Braxton Quinney), Lucas Sinclair (Elisha Williams), Will Byers (Benjamin Plessala), Max Mayfield (Jolie Hoang-Rappaport) e à nova integrante do grupo, Nikki (Odessa A’zion), investigar e desvendar mais um caso que pode definir o futuro de Hawkins.
Vamos lá, eu me vejo forçado a ser advogado do diabo aqui, não que eu não vá criticar, e MUITO, mas esperem um pouco. Quando essa série foi anunciada, muito se questionou sobre a cronologia dos eventos desse universo. Isso porque, como eu já disse na sinopse, a série acompanha a turma em um confronto nível “fim do mundo” entre a segunda e a terceira temporada, com a adição de novos personagens, e nada disso nunca foi mencionado antes?… Sim. E daí?
Faz parte da equação realizadores voltarem ao passado de determinadas franquias para explorar novas histórias e spin-offs. Pegue Star Wars, por exemplo: vemos que R2-D2 acompanhou LITERALMENTE todos os eventos da galáxia e nunca contou nada pra ninguém. O que eu tô querendo dizer é que isso faz parte do jogo, do formato de narrativas prequel, e não é um problema por si só. E, sério… vamos discutir furos de roteiro no universo de Stranger Things!?
Também não posso deixar de mencionar que, em determinados momentos, a série consegue recuperar faíscas do que tornava as duas primeiras temporadas especiais. Temos aqui uma narrativa menor, centrada exclusivamente no grupo principal de crianças, sem a adição de milhões de personagens secundários e subtramas desnecessárias, algo pelo qual a série principal acabou se tornando conhecida. Ao focar apenas nas crianças, seus erros e tropeços se tornam críveis e facilitam o nosso investimento na investigação e no mistério.
Os problemas começam no exato momento em que você começa a se perguntar por que isso existe. Não é aqui uma história que alguém quis contar de verdade, ou uma expansão necessária de universo, mas sim uma tentativa comercial da Netflix de congelar no tempo esse universo e seus personagens, dessa vez apelando INTEIRAMENTE para o público infantil.
Sim, e aqui eu vou ser bem honesto: essa guinada para o público infantil vem desde a terceira temporada. “Ah, mas tem sangue”… por favor. Stranger Things sempre teve sangue no mesmo nível que Five Nights at Freddy’s dá “medo”. Essas obras podem até ter começado com um público mais velho em mente, mas foi com as crianças que encontraram sua base.
Histórias de 85 é muito consciente de seu próprio posicionamento. A Netflix sabe que a série vai ser vista com maus olhos, sabe que não faz nem seis meses desde a péssima quinta temporada, então entrega um “comercial” de 10 episódios, praticamente um convite pra criançada pedir o McLanche Feliz da série com um dos bonequinhos.
Histórias de 85 também funciona como um plano de prevenção para o futuro, caso a Netflix queira utilizar novamente o grupo principal de crianças. Sim, os atores cresceram e já seguiram em frente após a última temporada, mas esses personagens ainda vendem brinquedos e sorvetes, então a Netflix traz aqui um novo elenco de voz para “congelar” esse universo no tempo. Podemos argumentar sobre o caráter dessa decisão o dia todo, mas as crianças aqui fazem um trabalho excelente e genuíno.
A animação, por sua vez, que já havia gerado uma série de debates quando a primeira imagem foi revelada, admito que é um pouco complicada. Não temos aqui uma animação ruim, pelo contrário, há bons traços e ela é, principalmente, beneficiada pela iluminação majestosa de alguns episódios, mas esses momentos não são a maioria… Em mais da metade do tempo, a simplicidade da animação entra em conflito com cenários vazios, casas e prédios sem muito acabamento, e fica claro que a equipe por trás de Histórias de 85 não teve muito tempo para desenvolver suas ideias e ambições.
Sendo bem honesto, o sentimento que fica após assistir Histórias de 85 é de raiva e decepção, não por essa série em específico, mas por tudo que esse universo poderia ter sido. Stranger Things: Histórias de 85 é a prova definitiva de que a Netflix perdeu qualquer interesse em contar narrativas que valham a pena dentro desse universo. Daqui pra frente, será apenas um comercial congelado no tempo para vender produtos.
Nota: 2,5/5
Direção: Sarah Partington, Eric Robles, Phil Allora, J.J. Conway, Ben Choi e Ashe Jacobson.
Elenco: Brooklyn Davey , Luca Diaz, Braxton Quinney, Elisha Williams, Benjamin Plessala, Jolie Hoang-Rappaport, Odessa A’zion
Análise feita por Bruno Sá