Inspirado no assassinato de Ângela Diniz, ocorrido em 1976, Pele de Rinoceronte acompanha duas mulheres cujas trajetórias se cruzam a partir desse crime que marcou a história brasileira. Débora Falabella interpreta Helena Ferraz, uma repórter policial que começa a investigar o caso e passa a confrontar também as violências presentes em sua própria vida. Naruna Costa vive Maria Thereza, uma advogada envolvida no julgamento, cuja trajetória coloca em evidência as contradições sociais e o machismo que atravessam o sistema de Justiça.
É inegável que Pele de Rinoceronte tem o coração no lugar certo, pois fica claro desde o início uma intenção legítima de discutir o machismo estrutural, a violência de gênero e a maneira como mulheres são tratadas pela sociedade, pela imprensa e pelas instituições. O problema é que nem sempre essa intenção encontra uma execução convincente. Em alguns momentos, especialmente quando o filme precisa abordar diretamente o ativismo feminista e as questões políticas que atravessam a história, os diálogos e as situações parecem perder a naturalidade. Em vez de deixar que essas ideias emerjam organicamente das experiências das personagens, o roteiro parece fazer questão de anunciar o que deseja discutir, tornando algumas passagens excessivamente explicativas.
O filme ainda conta com boas performances, especialmente de Débora Falabella e Naruna Costa, que conseguem sustentar personagens atravessadas por conflitos pessoais e sociais bastante complexos. Entretanto, suas performances acabam ficando presas a um mesmo registro durante o ato final, como se a narrativa já não soubesse muito bem o que fazer com as pessoas que apresentou. Depois de construir situações que prometem desdobramentos emocionais e políticos importantes, a obra perde força e parece estacionar.
Essa dificuldade fica ainda mais evidente na maneira como o longa aborda a violência contra a mulher. O filme apresenta um tema de enorme relevância histórica e social, mas seu ato final praticamente deixa de agir sobre as questões que vinha levantando. Fico faltando um maior desenrolar das consequências e a chance de dar às personagens espaço para que suas experiências transformem efetivamente a narrativa. Pele de Rinoceronte parece ter boas intenções e materiais dramáticos suficientes para chegar a um resultado muito mais impactante, mas finaliza a si mesmo sem saber como concluir o próprio argumento. O que poderia ser um encerramento forte sobre resistência, violência e transformação termina com a sensação de que o filme abandonou suas personagens justamente quando mais precisava ouvi-las.
Nota: 2,5/5
(Assistido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
Direção: Marcello Ludwig Maia
Elenco: Débora Falabella, Naruna Costa, Camila Lucciola
Análise feita por Laércio Barbosa