O que você fez em sete anos? Bom, eu me formei no ensino médio, cursei jornalismo, consegui meu primeiro emprego, me tornei redator… e isso só para citar algumas coisas. Esse também foi o tempo que demorou para Star Wars retornar aos cinemas. Desde Star Wars: A Ascenção Skywalker encerrar a trilogia sequel da Disney em 2019 sob uma recepção amplamente negativa por parte dos fãs, a saga criada por George Lucas permaneceu longe das telonas. Os motivos? Falta de clareza interna dentro da Lucasfilm e da Disney sobre qual rumo tomar com a franquia.
Após tantos anos, como Star Wars retornaria aos cinemas? Apostando justamente no sucesso da série The Mandalorian, lançada em 2019 para o streaming Disney+, e no carisma de sua dupla de protagonistas. O Mandaloriano e Grogu chega aos cinemas nesta semana e, apesar de ser o projeto mais inofensivo da franquia nas telonas, resgata toda a sensação de aventura que tornou o universo criado por George Lucas algo tão especial e promete conquistar uma nova geração de fãs.
Din Djarin (Pedro Pascal) e Grogu estão de volta, dessa vez atuando a serviço da Nova República e da Coronel Ward (Sigourney Weaver) na caça a antigos comandantes do Império após a destruição da segunda Estrela da Morte. Quando uma dessas missões coloca a dupla em rota de colisão com os Hutts, a relação de pai e filho será colocada à prova em sua aventura mais mortal até então.
Desde seu anúncio existia uma dúvida: O Mandaloriano e Grogu seria apenas um episódio estendido da série levado para os cinemas? E posso dizer com alívio que, em partes, não. O filme é uma aventura pensada para toda a família. Além de não exigir conhecimento prévio de Star Wars, o longa dirigido por Jon Favreau e Dave Filoni também não exige que o público tenha acompanhado a série. É uma história inédita que possui como principal objetivo apresentar Star Wars para uma nova geração.
Essa simplicidade também se reflete em seu núcleo de personagens. Além de Din Djarin e Grogu, a trama trabalha com poucos personagens, mantendo o foco da narrativa e guiando o público através de uma aventura frenética.
E coloca frenética nisso, com uma introdução que conta com o retorno dos massivos andadores AT-AT, o filme deixa claro que será o Star Wars com mais sequências de ação da franquia. As cenas são dinâmicas, bem coreografadas e são, ao lado de Rogue One: Uma História Star Wars, as melhores sequências de ação da franquia sob tutela da Disney nesses 14 anos. Visualmente, o longa é misto de CGI e efeitos práticos, introduzindo o maior número de criaturas possíveis para Din Djarin e Grogu enfentetarem em sua jornada.
Pedro Pascal retorna como Din Djarin, um caçador de recompensas que lida com a responsabilidade de ser pai e, francamente, não agrega muito ao papel para quem já acompanhou a série. A jornada do personagem já havia alcançado sua conclusão e o filme acaba precisando repetir partes desse desenvolvimento para apresentar Din a um novo público. É Grogu quem realmente rouba a cena.
Particularmente, eu tinha certos problemas com Grogu em alguns momentos da série. Apesar do trabalho admirável na construção da marionete, suas limitações ficavam claras durante sequências de ação mais elaboradas, principalmente na terceira temporada, mas isso não acontece aqui.
Grogu finalmente funciona como seu próprio personagem, participando ativamente da jornada e até assumindo o protagonismo em diversos momentos. Cinco profissionais são creditados no filme por trazer Grogu à vida em um trabalho prático que consegue superar o visto na série, oferecendo muito mais liberdade para um personagem que busca deixar de ser apenas um símbolo de fofura.
Outros destaques vão para Jeremy Allen White no papel de Rotta, o Hutt, filho de Jabba que busca sair da sombra do pai, e para a já mencionada Sigourney Weaver no papel da coronel Ward que, apesar de pouco utilizada pelo roteiro, transmite a sensação de que nasceu para ocupar uma posição de liderança dentro de Star Wars.
Entretanto, ainda estamos falando de um filme derivado de uma série e, apesar da escala justificar sua presença nas telonas, o roteiro episódico me faz questionar se talvez esse projeto não funcionaria melhor como uma quarta temporada de The Mandalorian.
Em diversos momentos, O Mandaloriano e Grogu parece literalmente quatro episódios colados uns aos outros, sendo até possível perceber onde um “capítulo” termina e o próximo começa. Os realizadores já afirmaram que, apesar dos rumores, o longa nunca foi planejado como a trama da quarta temporada e que essa história sempre foi concebida para um filme. Francamente? É difícil acreditar nisso quando a narrativa se divide em blocos tão evidentes como acontece aqui.
Sabe aqueles filmes de anime que precisam pisar em ovos para não contradizer a série principal e, por isso, acabam contando histórias mais “inofensivas”? É exatamente esse o caso aqui. O Mandaloriano e Grogu é grande demais para ser apenas um episódio e, justamente por isso, ganha escala de cinema. Entretanto, seu impacto é diluído o tempo inteiro para não comprometer um possível retorno da série no futuro.
E eu discordo completamente daqueles que afirmam que Star Wars nunca deve ser simples. As melhores aventuras da franquia sempre aconteceram quando Star Wars conseguia cativar o público de maneira direta e, a partir disso, expandia naturalmente seu universo. Depois de tantos anos e com uma fanbase tão fragilizada, afirmo sem medo: esse era exatamente o tipo de projeto que Star Wars precisava. Sim, falta ambição em alguns momentos, mas com uma franquia tão polarizada quanto Star Wars se tornou, talvez seja necessário primeiro testar as águas com o público e, acima de tudo, construir uma nova porta de entrada para a próxima geração de fãs.
Abro aqui um espaço para falar diretamente com a fanbase de Star Wars. Eu amo essa franquia de paixão. Ela faz parte da pessoa e do profissional que me tornei hoje e, justamente por isso, parte meu coração ver uma comunidade que muitas vezes parece ter decidido odiar tudo que leva o nome da saga antes mesmo de formar sua própria opinião. E pior: atacar pessoas cujo único “crime” foi apenas se divertir com um filme.
Não, eu também não gosto de muitas decisões que a Disney tomou com a franquia, mas eu cresci com a trilogia prequel e, vejam só, ela também era odiada durante sua época de lançamento. Existem tantos discursos sobre o que Star Wars deveria ser que muita gente esquece o mais importante: George Lucas criou uma aventura especial para todas as idades. Uma fantasia para crianças viverem aventuras em uma galáxia muito, muito distante e para adultos se sentirem em casa. E talvez a franquia tenha perdido o rumo justamente quando se afastou dessa mentalidade.
O Mandaloriano e Grogu não reinventa a roda e definitivamente não é o melhor filme da franquia, mas conquista justamente por sua simplicidade e por ter o coração no lugar certo. Existe aqui uma tentativa genuína de restabelecer Star Wars como aquilo que sempre deveria ser: uma aventura especial para todos os públicos.
Nota: 3/5
Direção: Jon Favreau e Dave Filoni
Elenco: Pedro Pascal, Sigourney Weaver, Jeremy Allen White, Martin Scorsese, Jonny Coyne, Steven Blum
Análise feita por Bruno Sá