Análise | ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ emociona ao amadurecer herói junto de seus fãs

Fazem dez anos. Sim, acreditem se quiser: já se passaram dez anos desde que o Homem-Aranha foi introduzido no Universo Cinematográfico da Marvel, em Capitão América: Guerra Civil (2016), interpretado por Tom Holland.

A versão mais jovem do Cabeça de Teia só foi possível após as dificuldades da Sony em estabelecer um universo cinematográfico focado no herói e em sua galeria de vilões. Depois de O Espetacular Homem-Aranha 2 (2014), estrelado por Andrew Garfield, decepcionar em bilheteria e crítica, a franquia foi encerrada. Foi então que surgiu um acordo entre a Sony, detentora dos direitos cinematográficos do personagem desde o fim dos anos 90’s, quando a editora, acreditem ou não, declarou falência, e a Marvel Studios, permitindo que Peter Parker finalmente integrasse o MCU. Tom Holland se tornou o ator mais jovem a vestir o uniforme do herói, apresentando um Peter Parker ainda no ensino médio, tentando encontrar seu lugar em um universo muito maior do que ele.

Aqui devo admitir uma coisa: eu nunca fui o maior fã dos filmes do Homem-Aranha dentro do MCU.

Sim, o Homem-Aranha é meu personagem favorito, e meus problemas nunca tiveram relação com Tom Holland, que rapidamente se tornou uma das minhas versões preferidas do herói. Minha questão sempre foi com o estranho aspecto comercial e plástico que sua trilogia evocava. Filmes sustentados por participações especiais em excesso, efeitos visuais questionáveis e, principalmente, um Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa que, apesar de emocionante, parecia depender do retorno de Tobey Maguire, Andrew Garfield e dos antigos vilões para fazer o público se importar. Para mim, eram histórias que constantemente afastavam Peter Parker de sua essência.

Mas o final do terceiro filme prometia uma limpeza completa no tabuleiro.

Após o feitiço realizado por Doutor Estranho para salvar o multiverso, Peter Parker foi esquecido por todos que amava. Agora, completamente sozinho, precisaria construir um novo caminho.

Minha dúvida era simples: a Marvel realmente teria coragem de seguir com esse final ou voltaria atrás?

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Com Destin Daniel Cretton assumindo a direção do projeto após deixar Vingadores: A Dinastia Kang, que mais tarde se tornaria Vingadores: Doutor Destino, Homem-Aranha: Um Novo Dia prometia justamente isso: um verdadeiro recomeço para o personagem. Uma história mais densa, mais pé no chão, refletida até mesmo nas cenas de ação. Nos últimos meses, diversos vídeos de bastidores destacaram o uso de coreografias práticas e acrobacias reais, algo que não esperava menos do diretor de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis.

Após cinco anos de espera e uma antecipação gigantesca, Homem-Aranha: Um Novo Dia entrega uma história sobre amadurecimento e isolamento. Em uma geração que vive cada vez mais presa às telas e às próprias dores, o filme fala sobre os perigos da solidão, dos traumas silenciosos e da dificuldade de seguir em frente. É protagonizado por um ator que cresceu ao lado de seu personagem e de toda uma geração de fãs, sustentado por um roteiro que finalmente não tem medo de levar o Homem-Aranha a novos patamares.

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Quatro anos se passaram desde que o mundo esqueceu quem é Peter Parker (Tom Holland). Atuando em tempo integral como o Homem-Aranha, Peter encontra dificuldades para seguir em frente e lidar com a ausência das pessoas que amava.

Quando uma nova ameaça surge em Nova York, capaz de controlar a mente dos cidadãos, Peter precisará enfrentar não apenas um inimigo poderoso, mas também seus próprios demônios internos. Em meio a um grande mistério, ele descobrirá que a linha entre o bem e o mal pode ser muito mais tênue do que imaginava.

Logo de cara, o filme corrige um dos meus maiores problemas com a trilogia dirigida por Jon Watts: temos aqui uma história do Homem-Aranha e apenas dele. Sim, diversos outros personagens participam da narrativa, mas Peter Parker permanece no centro de tudo do início ao fim.

Acompanhamos a rotina obstinada de um herói que dedica todo o seu tempo ao combate ao crime e de um jovem que, constantemente, ignora seus próprios problemas. Homem-Aranha: Um Novo Dia segue por caminhos que eu jamais imaginei ver em um filme do personagem. Embora temas semelhantes já tenham sido explorados em outras mídias, aqui eles ganham uma identidade própria ao incorporar questões muito presentes na juventude atual, como a exaustão psicológica, a eterna comparação com os outros, a busca incessante por validação e até mesmo a automedicação como forma de lidar com as próprias dores.

Peter carrega o peso do mundo nas costas, e Tom Holland não apenas se consolida como o ator que há mais tempo interpreta o personagem, são dez anos e quatro filmes solo, sem contar suas participações especiais no MCU, como entrega sua atuação mais versátil até aqui.

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Ao longo dessa década, vimos Holland amadurecer como ator, e aqui ele está completamente à vontade no papel. Sentimos a exaustão de Peter em seu olhar, em sua postura e, principalmente, em seus gestos. Passando boa parte do filme vestido como Homem-Aranha, desta vez em um traje predominantemente prático, e não criado por CGI, Holland consegue transmitir emoção mesmo por trás da máscara, dando profundidade a um herói que continua sendo tão humano justamente por ser apenas um jovem tentando fazer o melhor todos os dias.

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MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) retornam dos filmes anteriores, com Homem-Aranha: Um Novo Dia resgatando o aspecto de novela romântica e drama que marcou as histórias clássicas do personagem nas HQs dos anos 60’s, criadas por Stan Lee e Steve Ditko.

O roteiro faz questão de consolidar as consequências de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, explorando a dificuldade de Peter em seguir em frente e conviver com o peso de suas próprias escolhas. Ao lado de Zendaya, que, curiosamente, hoje também é esposa de Tom Holland na vida real , o ator protagoniza alguns dos momentos mais emocionantes e genuínos do filme. A relação entre Peter e MJ é construída como um amor que permanece muito próximo de seu coração, mas distante demais para ser alcançado.

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Mesmo sem contribuir diretamente para a trama como nos dois filmes anteriores, Zendaya continua entregando uma MJ afiada, carismática e extremamente precisa. Já Jacob Batalon apresenta sua melhor atuação na franquia até aqui, equilibrando drama e humor com naturalidade e protagonizando algumas das cenas mais divertidas do longa.

Como já mencionei, temos aqui uma história completamente centrada no Homem-Aranha. Isso, entretanto, não significa que Peter não receba uma mãozinha de personagens já consagrados do Universo Marvel. A diferença é que, enquanto nos filmes anteriores as participações especiais muitas vezes acabavam ofuscando o brilho do herói, aqui cada personagem serve a um propósito dentro da narrativa e reforça seu tema central. Nenhuma aparição parece gratuita ou existe apenas para arrancar aplausos da plateia.

Sem entrar em spoilers, vale destacar Frank Castle (Jon Bernthal). A improvável parceria entre o Homem-Aranha e o Justiceiro rende, para mim, os melhores momentos e as sequências mais marcantes do longa. São dois personagens consumidos pelo peso da perda, mas que encontram forças um no outro, mesmo defendendo visões completamente diferentes sobre justiça. É justamente desse contraste que nasce uma das relações mais interessantes já vistas em um filme do Cabeça de Teia.

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E, claro, temos Sadie Sink. No momento em que este texto vai ao ar, é o dia de estreia do longa e, portanto, não vou revelar a identidade da personagem que o marketing fez questão de manter em segredo durante toda a campanha.

O que posso dizer é o seguinte: sempre que ela está em cena, o filme ganha uma camada ainda mais densa. Sua personagem funciona quase como um reflexo de Peter Parker. Vemos uma jovem perdida em um mundo que parece ter esquecido de olhar para o próximo, alguém cuja visão de justiça foi moldada pela dor, pelo abandono e pelas circunstâncias. A dinâmica entre os dois personagens é um dos grandes acertos do roteiro, justamente por colocar frente a frente duas pessoas quebradas, tentando encontrar algum sentido em meio ao caos que as cerca.

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Abandonando o aspecto plástico dos filmes anteriores, Destin Daniel Cretton entrega uma direção muito mais inspirada. O diretor aposta em planos abertos e amplos para que possamos apreciar a grandiosidade de Nova York. Vemos Peter se balançando entre os prédios, sentimos o efeito do vento em seu traje e acompanhamos o reflexo das lentes de sua máscara em sequências que realmente nos fazem mergulhar naquele universo.

O filme dedica tempo para mostrar o Homem-Aranha simplesmente sendo o Homem-Aranha. Há momentos em que acompanhamos Peter patrulhando a cidade, impedindo pequenos crimes e interagindo com a população. Sim, essas passagens também servem para incluir participações de alguns adversários clássicos de sua galeria de vilões, mas, acima de tudo, reforçam quem o personagem realmente é.

As cenas de ação são outro grande destaque. Este é, sem dúvida, o filme do Cabeça de Teia com a maior quantidade de sequências de combate, e cada uma delas é um verdadeiro deleite. Enfrentando um inimigo cuja principal arma não é a força física, o roteiro encontra maneiras criativas de tornar cada confronto intenso e imprevisível. O resultado culmina em um clímax que, sem exagero, promete figurar entre as melhores sequências de ação já vistas no Universo Cinematográfico da Marvel.

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Apesar de emocionante, Homem-Aranha: Um Novo Dia também enfrenta alguns problemas. O principal deles é tentar abraçar ideias demais ao mesmo tempo. Em diversos momentos, o roteiro parece querer desenvolver muitos personagens, explorar diferentes poderes e discutir várias mensagens simultaneamente. Embora boa parte dessas escolhas funcione, o resultado é um filme que, ocasionalmente, soa sobrecarregado.

Isso acaba se refletindo em decisões, no mínimo, curiosas do marketing. Veja bem: apesar de toda a grandiosidade, a trama é relativamente simples e direta ao ponto. Se você assistiu aos trailers, o que está ali é, em grande parte, o que encontrará no filme. O problema é que trailers e pôsteres deram enorme destaque a elementos que possuem pouca ou nenhuma relevância para a narrativa, tratando-os como se fossem o coração da história, quando funcionariam muito melhor como surpresas para quem fosse ao cinema. Em contrapartida, reviravoltas que ficam evidentes desde a primeira sinopse, ou até mesmo nos primeiros minutos do filme, são vendidas pelo marketing como grandes mistérios, algo que o próprio longa parece não considerar tão importante.

O que quero dizer é simples: talvez o seu personagem favorito não tenha a participação que a campanha publicitária fez parecer. Em alguns casos, tudo se resume a uma única sequência empolgante, que teria causado um impacto muito maior se tivesse sido preservada como surpresa para o público.

Homem-Aranha: Um Novo Dia - Novo Trailer (Legendado)

Saí da cabine de imprensa de Homem-Aranha: Um Novo Dia em lágrimas.

O longa me fez lembrar por que o Homem-Aranha é meu personagem favorito. Acima de tudo, suas histórias, e o gênero de super-heróis como um todo, deveriam refletir esperança. A esperança de continuar, independentemente das circunstâncias. De seguir em frente quando o corpo pede para parar e a mente parece distante. De acreditar que sempre existe um novo dia.

Ao resgatar os valores centrais do personagem, Homem-Aranha: Um Novo Dia entrega não apenas um grande filme do Cabeça de Teia, mas uma mensagem que dialoga diretamente com a realidade de uma geração marcada pelo cansaço, pela solidão e pela incerteza. Em um mundo que, mais do que nunca, precisa voltar a acreditar, Peter Parker nos lembra que, mesmo depois das maiores perdas, sempre vale a pena continuar lutando.

Nota: 4,5/5

Direção: Destin Daniel Cretton

Elenco: Tom Holland, Sadie Sink, Zendaya, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Mark Ruffalo, Michael Mando, Marvin Krondon James III

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