A melhor parte de apreciar e trabalhar com cinema são as surpresas. Muitas vezes, filmes surgem do nada, nos pegam desprevenidos e acabam se tornando alguns dos grandes destaques do ano. Obsessão está aí para não me deixar mentir.
Pensando nisso, o Cine Belas Artes, em São Paulo, retorna com a terceira edição do Festival Filmes Incríveis. O evento reúne longas inéditos de diferentes países que passaram por festivais como Cannes, Berlim e Roterdã, permitindo que o público tenha acesso a produções autorais que dificilmente encontram espaço no circuito comercial.
Para abrir o festival, fomos convidados para a sessão de Paraíso – Entre Duas Margens, primeiro longa-metragem do cineasta canadense Jérémy Comte. Ambientado entre Gana e Québec, o filme reflete sobre ausência paterna, descoberta e as diferentes realidades que moldam a juventude, mostrando como muitos jovens acabam sendo empurrados para caminhos difíceis simplesmente para sobreviver.
Após perder o pai, Kojo (Daniel Atsu Hukporti) passa a aplicar golpes virtuais para sobreviver às crises humanitária e financeira que assolam Gana. Em uma dessas fraudes, ele acaba conhecendo Chantal (Évelyne de La Chenelière), uma professora e mãe solo que cria o filho, Tony (Joey Boivin – Desmeules).
À medida que a relação entre Kojo e Chantal se torna cada vez mais perigosa, suas escolhas passam a impactar diretamente a vida de Tony, entrelaçando o destino de dois jovens que, em realidades completamente diferentes, tentam encontrar seu próprio caminho.
Devo dizer: Paraíso – Entre Duas Margens não é o filme mais fácil de analisar. Isso porque o longa deixa grande parte de sua narrativa aberta a interpretações e esconde suas cartas durante boa parte da duração.
Dividido em três atos, o filme acompanha diferentes personagens, permitindo que cada um revele gradualmente sua importância para a história. Talvez seu aspecto mais cativante seja a sensação de que não estamos assistindo a atores interpretando papéis, mas sim acompanhando pessoas reais em seu cotidiano. Essa autenticidade está presente desde os cenários, sujos, escuros, pesados e sufocantes, transmitindo uma profunda tristeza a cada quadro sem esconder a realidade de seus personagens, até o próprio elenco, tornando fácil se sensibilizar com as motivações de cada um.
Kojo é quem recebe mais tempo de tela. Após perder o pai, sua principal figura de referência e ensinamentos, jamais o vemos chorar ou lidar diretamente com o luto. Em vez disso, acompanhamos como essa ausência moldou sua visão de mundo, distorcendo sua percepção entre o certo e o errado. Kojo compreende plenamente as consequências de suas ações e, em nenhum momento, parece sentir prazer com elas. Pelo contrário: em determinado momento, ele sofre ao perceber o impacto que causou na vida de Chantal, evidenciando o vazio deixado pela ausência de uma figura adulta capaz de guiá-lo.
Essa ausência também se reflete em Tony, filho único de Chantal. Assim como Kojo, o garoto parece carregar uma tristeza constante. Nunca tendo conhecido o pai, Tony vive apenas com a mãe e, na tentativa de protegê-la, acaba assumindo um papel de justiceiro imprudente, tentando preencher um vazio que jamais deveria ser responsabilidade de uma criança.
Mas é em Chantal que o longa realmente me conquistou.
Mãe solo e profundamente solitária, Chantal acaba se tornando vítima de um golpe cibernético, uma situação muito mais comum do que muitos imaginam. Todos nós conhecemos, ou temos alguém na família que conhece, uma vítima de golpes que exploram a fragilidade emocional das pessoas. Normalmente, os criminosos se aproveitam do luto, da ausência, da carência e da solidão, deixando para a vítima não apenas o prejuízo financeiro, mas também um enorme sentimento de culpa, capaz de desencadear quadros graves de depressão.
A espiral emocional na qual Chantal mergulha é profundamente impactante justamente porque o filme entende que, no fim das contas, amar e ser amado é um direito de todos.
O longa expõe uma rede global de golpes virtuais, reforçando a necessidade de cautela em um mundo onde grande parte das nossas relações acontece pela internet. Entretanto, acima de tudo, Paraíso – Entre Duas Margens nos convida a enxergar uma mesma história por diferentes perspectivas. O julgamento precipitado pode facilmente dar lugar ao preconceito quando nos recusamos a compreender que cada pessoa enfrenta uma realidade diferente. Todos carregam suas próprias batalhas e precisam jogar com as cartas que a vida lhes deu.
Ao redor do mundo, crianças e jovens encontram em organizações criminosas uma forma de sobreviver enquanto convivem com a ausência de figuras que poderiam tê-los guiado por caminhos diferentes.
Mais do que um alerta sobre os perigos da internet, Paraíso – Entre Duas Margens é o retrato de um mundo que, ao deixar de olhar para o próximo, transformou o amor, a esperança e a vulnerabilidade em moedas de troca para sobreviver.
Nota: 4/5
Direção: Jérémy Comte
Elenco: Daniel Atsu Hukporti, Évelyne de La Chenelière, Joey Boivin – Desmeules