Análise | ‘Moana (2026)’ é um monumento à falta de criatividade

*Respira fundo

Muito pode ser dito sobre jornalistas, críticos e redatores. Alguns afirmam que já assistimos aos filmes com uma opinião formada e que apenas procuramos argumentos para reforçá-la. E, sim, acredito que isso exista. Mas falo por experiência própria: não existe prazer em falar mal de um projeto. Nosso objetivo é oferecer uma crítica construtiva para que você, leitor, possa decidir se vale ou não a pena dedicar seu tempo a determinada obra.

Toda essa introdução foi apenas para preparar o terreno, porque o assunto de hoje é, sinceramente, inacreditável.

Na década passada, a Disney começou a revisitar seu vasto catálogo de animações para produzir versões em live-action. Projetos de grande orçamento, estrelados por grandes nomes de Hollywood. O movimento começou de forma tímida com Cinderela, dirigido por Kenneth Branagh e estrelado por Lily James, em 2015, seguido por Mogli: O Menino Lobo, dirigido por Jon Favreau e protagonizado por Neel Sethi, em 2016. Mas foi em 2017 que a estratégia realmente explodiu. A Bela e a Fera, dirigido por Bill Condon e estrelado por Emma Watson e Dan Stevens, ultrapassou a marca de um bilhão de dólares em bilheteria e consolidou os remakes em live-action como um dos principais pilares do estúdio. Nos anos seguintes, animações como Dumbo, Aladdin e O Rei Leão também ganharam suas respectivas versões.

É preciso reconhecer o óbvio: nos últimos quinze anos, o cinema vive uma verdadeira era da nostalgia. Hollywood parece cada vez mais interessada em revisitar franquias já consolidadas, como Star Wars e Jurassic World, na esperança de obter retornos financeiros mais seguros. Os live-actions da Disney são apenas mais um sintoma desse movimento. Mais do que modernizar essas histórias, como frequentemente era dito pelos realizadores, a estratégia parecia buscar substituí-las. Em um período no qual as animações se tornavam cada vez mais caras de produzir, os live-actions ajudaram a descentralizar a imagem da Disney como um estúdio essencialmente voltado para animações.

E, para ser justo, a estratégia funcionou.

Por mais que muitos, eu incluso, tenham sido bastante vocais em relação ao descontentamento com esse movimento, que indiretamente transmitia a mensagem de que animações, por si só, já não eram suficientes, o público compareceu em peso aos cinemas. Muito disso impulsionado pela nostalgia. Afinal, estamos falando de obras lançadas há 30 anos ou mais. Reapresentar essas histórias para uma nova geração enquanto despertava memórias em quem cresceu com elas não era, por si só, uma ideia ruim.

Mas e quando o filme original foi lançado há apenas dez anos e ainda está vivo na memória do público? Em uma época em que o próprio estúdio parecia diminuir o valor de suas animações, Moana: Um Mar de Aventuras, lançado em 2016, tornou-se um marco. A animação apresentou a cultura polinésia em uma obra visualmente deslumbrante, com cenários inesquecíveis e músicas que permanecem no imaginário popular até hoje.

Assistir a Moana: Um Mar de Aventuras | Disney+

Quase uma década depois, Moana 2 chegou aos cinemas, em 2024. Apesar de críticas inferiores às do primeiro filme e de uma produção conturbada, a sequência também ultrapassou a marca de um bilhão de dólares em bilheteria, e um terceiro filme já está em desenvolvimento.

Então eu pergunto: com um filme que marcou uma geração inteira, cuja sequência foi lançada há apenas dois anos, quem realmente achou que era uma boa ideia produzir uma versão em live-action? Vou entrar nos motivos pelos quais acredito que esse projeto exista ao longo deste texto. Mas uma coisa precisa ser dita desde já:

Moana (2026) é um desrespeito ao filme original e ao próprio gênero da animação. Fraco, raso e completamente sem alma, o projeto se limita a copiar e colar os elementos do longa de 2016 sem compreender o que, de fato, o tornou tão especial.

Moana (2026) - Plugged In Movie Review

Como em todas as minhas críticas, é hora de apresentar uma breve sinopse do projeto. Mas, desta vez, preciso fazer um aviso: ela é praticamente idêntica à do filme original.

Moana (Catherine Laga’aia) é uma jovem corajosa da ilha de Motunui. Quando uma misteriosa praga passa a ameaçar a sobrevivência de seu povo, ela atende ao chamado do oceano e parte em uma jornada ao lado do semideus Maui (Dwayne Johnson). Juntos, os dois enfrentam os perigos do mar em uma missão para restaurar o coração de Te Fiti e devolver o equilíbrio ao mundo.

Review de “Moana (live-action)” (2026) - Arteview

Vamos lá, admito que o longa possui poucos méritos próprios. Se há um aspecto que realmente merece destaque, é Catherine Laga’aia.

A jovem atriz interpreta uma personagem extremamente limitada. O roteiro praticamente a obriga a reproduzir cada gesto, expressão e entonação da versão animada, deixando pouco espaço para que ela acrescente novas nuances à protagonista. Ainda assim, Catherine entrega um bom trabalho, destacando-se tanto nas coreografias e números musicais quanto, principalmente, nas cenas de ação.

Moana' Review: The Rock's Live-Action Disney Remake Isn't a Voyage Worth  Taking

Para o bem ou para o mal, Dwayne Johnson acaba sendo o grande destaque do filme, e um dos principais motivos para a existência deste projeto. Calma, leitor, nós ainda vamos chegar lá.

O ator retorna ao papel de Maui, personagem que já havia dublado na animação original, completamente à vontade e com um carisma contagiante. É praticamente impossível não esboçar ao menos um sorriso sempre que ele aparece em cena. As músicas continuam cativantes. E não, isso não é mérito do live-action, afinal são praticamente as mesmas composições do filme de 2016. Ainda assim, confesso que balancei a cabeça durante “You’re Welcome”. Algumas canções simplesmente continuam funcionando.

É uma HONRA", diz Dwayne Johnson sobre o live-action de 'Moana' durante a  #CinemaCon 2026

Lembram dos visuais deslumbrantes, coloridos e repletos de magia da animação original? Esqueçam.

É claro que, em um formato live-action, certas limitações surgem. A animação permite um nível de expressão dos personagens e um dinamismo visual que dificilmente podem ser reproduzidos com atores reais. Entretanto, isso não é desculpa. O live-action de Como Treinar o Seu Dragão, lançado no ano passado, mostrou justamente o caminho contrário. Em vez de tentar copiar quadro a quadro a animação, o filme ampliou sua escala, utilizando cenários reais e sequências de ação para tornar aquele universo ainda mais grandioso.

Em Moana, poderíamos sentir a imensidão do oceano, a força das ondas e a exuberância das ilhas da Polinésia. Era a oportunidade perfeita para expandir o mundo apresentado em 2016.

Mas não é isso que acontece.

Moana

Embora existam algumas cenas gravadas em locações, boa parte do filme foi registrada em estúdio, utilizando cenários criados em CGI. O resultado são ambientes artificiais, mortos e completamente sem personalidade, incapazes de transmitir o encanto da animação original.

E isso é simplesmente inaceitável. A principal justificativa para transformar uma animação em live-action deveria ser justamente aproveitar locações reais, explorar paisagens naturais e oferecer uma nova perspectiva visual para aquela história.

A apatia visual não se limita aos cenários; ela se estende também aos próprios personagens.

Moana - Official Teaser Trailer (2026) Live-Action

Hei Hei, o carismático e desajeitado galo da animação original, parece ter saído diretamente de um pesadelo nesta nova versão. Já o pequeno porquinho Puá é tão artificial que mal aparece ao longo do filme, como se a produção soubesse que seu visual simplesmente não funcionava.

Tamatoa (Jemaine Clement), por outro lado, acaba sendo um dos poucos acertos do longa, dentro das devidas proporções. O caranguejo gigante mantém um design muito próximo ao da animação e continua roubando a cena sempre que aparece, preservando boa parte do humor e da personalidade do personagem.

Tamatoa | Disney Wiki | Fandom

Outro aspecto que torna esse contraste visual ainda mais evidente é a questionável escolha por uma fotografia acinzentada e excessivamente realista. Não é um problema exclusivo de Moana; praticamente todos os live-actions da Disney seguem esse mesmo padrão. Mas, aqui, a decisão é particularmente ofensiva.

A animação original encantava justamente pelo brilho do oceano, pelas cores vibrantes das ilhas e pela exuberância da cultura polinésia. Nesta nova versão, tudo parece escuro, dessaturado e sem vida. Em alguns momentos, a fotografia é tão escura que certas cenas se tornam difíceis até mesmo de compreender visualmente.

É um contraste gritante com um filme cuja maior qualidade sempre foi justamente o seu espetáculo visual.

Disney Shares Early Glimpse of Live-Action 'Moana' Film Coming to Theaters  in Summer 2026

Moana (2026) também sofre de um problema que considero inerente aos remakes em live-action: o paradoxo da adaptação. O que quero dizer com isso? É simples. Se o filme copia exatamente a história original, será criticado por não trazer nada de novo, como aconteceu com O Rei Leão (2019). Mas, se muda demais, surge a pergunta inevitável: então por que revisitar essa história? Foi exatamente esse o debate que cercou o polêmico Branca de Neve (2025).

Particularmente, acredito que animações não deveriam ser refeitas em live-action. Ponto.

Mas, se a decisão já foi tomada, o mínimo esperado é que o projeto encontre maneiras de expandir a obra original, oferecendo algo que justifique sua existência. Mais uma vez volto ao exemplo de Como Treinar o Seu Dragão, lançado no ano passado. Como a narrativa original já era praticamente impecável, a equipe liderada por Dean DeBlois, o mesmo diretor da animação, optou por ampliar a escala da aventura. As sequências de ação foram expandidas, os voos ganharam uma sensação ainda maior de velocidade e grandiosidade, e o filme aproveitou as possibilidades do IMAX para entregar uma experiência diferente, mas complementar à animação.

O resultado foi um remake que consegue se sustentar ao lado da obra original, mesmo sem superá-la.

How to Train Your Dragon: Live Action Reignites a Series That Was Starting  to Drag(on) — Original Cin

Moana (2026) faz a escolha oposta.

O filme replica a animação de 2016 praticamente cena por cena. E, embora não siga o mesmo caminho do live-action de Lilo & Stitch, lançado no ano passado, que insistia em se considerar mais inteligente do que o material original, essa fidelidade extrema torna as comparações ainda mais inevitáveis.

Porque, no fim das contas, a estrutura é exatamente a mesma, só que sem a mesma alma, sem o mesmo encanto e sem a mesma criatividade.

Sendo assim, resta apenas uma pergunta: por que isso existe? Aqui eu só posso especular, mas consigo enxergar dois grandes motivos.

O primeiro é a Disney estar testando até onde o público aceita o intervalo de tempo entre uma animação e sua versão em live-action. No ano passado tivemos o já mencionado Lilo & Stitch. A animação original foi lançada em 2002, enquanto sua versão em live-action chegou 23 anos depois, um dos menores intervalos adotados pelo estúdio até então. Moana, por sua vez, estreou em 2016 e foi um dos maiores marcos da animação na última década. Seu live-action chega apenas dez anos depois.

O problema é que, se antes o estúdio parecia utilizar essas produções para substituir suas animações, agora a sensação é ainda pior: elas passaram a servir apenas como um campo de testes. A lógica parece ser simples: produzir uma animação, medir seu impacto junto ao público e, caso faça sucesso, transformá-la rapidamente em um blockbuster live-action. Essa mentalidade não apenas desvaloriza ainda mais um gênero que já enfrenta dificuldades para ser reconhecido como também parte justamente do estúdio que construiu seu legado através de clássicos animados atemporais.

Novo trailer de Moana live-action; saiba onde assistir

O segundo motivo pode ser resumido em uma palavra: ego.

Em 2022, Dwayne Johnson protagonizou um dos maiores fracassos de sua carreira com Adão Negro. Na época, o ator tentou transformar o filme no ponto central do universo cinematográfico da DC. Quando o fracasso comercial e de crítica ficou evidente, começaram a surgir relatos sobre sua influência criativa e sua tentativa de controlar os rumos da franquia. Desde então, Johnson parece ter iniciado uma verdadeira reconstrução de sua imagem. Anunciou e protagonizou Coração de Lutador: The Smashing Machine e também foi o responsável por produzir e anunciar este live-action de Moana.

Novamente, isso é apenas uma especulação. Mas chama atenção o fato de que o vídeo de anúncio do projeto foi protagonizado pelo próprio ator e que boa parte da campanha de marketing, pôsteres, trailers e comerciais,  concentra seu foco quase exclusivamente em Maui, mesmo ele não sendo o protagonista da história.

MOANA Trailer Introduces Dwayne Johnson's Live-Action Maui - Nerdist

No fim das contas, nada disso justifica o resultado.

Moana (2026) é um projeto vergonhoso, sem alma, produzido apenas para arrecadar mais alguns milhões explorando o carinho que o público tem pela animação original. É uma mancha no legado de um dos maiores filmes da Disney nos últimos anos.

É inaceitável que um estúdio dilua sua própria biblioteca com projetos como este. Thomas Kail, diretor com ampla experiência em musicais, sequer consegue expandir os números musicais ou as coreografias do filme original, desperdiçando justamente a oportunidade que um remake poderia oferecer.

Quase nada funciona.

E, como um grande fã de animações, parte meu coração saber que a roda continuará girando como se nada disso tivesse acontecido.

Nota: 1/5

Direção: Thomas Kail

Elenco:Catherine Laga’aia, Dwayne Johnson, Frankie Adams, John Tui, Rena Owen

 

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