Todo mundo conhece o Homem-Aranha. Não, sério: você já teve que apresentar o Homem-Aranha para alguém?
Seus filmes, HQs e histórias estão enraizados no imaginário popular, com cada geração tendo até seu ator favorito no papel de Peter Parker (aqui, um fã de Andrew Garfield). Mas os mitos do herói vão muito além de Peter Parker. Temos uma extensa galeria de vilões e, além disso, um multiverso de oportunidades a serem aproveitadas. Sim, sim, nos últimos anos o termo “multiverso” virou desculpa para trazer personagens de volta dos mortos, forçar crossovers ou até mesmo consertar cronologias confusas. Mas o Homem-Aranha foi um dos primeiros personagens a usar esse conceito, lá em 1994, em Homem-Aranha: A Série Animada, e ele se tornou um padrão do personagem desde então.
Era a oportunidade de mostrar que pode existir qualquer pessoa por trás da máscara, que o que torna você especial é sua capacidade de continuar tentando e, claro, ensinar em outros contextos que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Foi nesse cenário que tivemos a criação de Miles Morales em 2011, por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli, e também, tema deste texto, o Homem-Aranha Noir, criado em 2008 pelos roteiristas David Hine e Fabrice Sapolsky, com arte de Marko Djurdjevic.
Ambientado em uma versão sombria de Nova York nos anos 30, acompanhávamos um Peter Parker mais sombrio, menos compreensivo com seus vilões, digamos assim, e disposto a cruzar a linha se necessário. A HQ, inicialmente uma minissérie, foi um sucesso instantâneo, principalmente por seu estilo de narrativa remanescente dos clássicos filmes noir de época. O personagem fez outras aparições ao longo dos anos, como no jogo Spider-Man: Shattered Dimensions, em 2010, e na saga de HQs Aranhaverso, lançada em 2014 pelo roteirista Dan Slott.
No entanto, o personagem se tornou conhecido do grande público em 2018 com a animação Homem-Aranha no Aranhaverso, que via o protagonista Miles Morales tendo que trabalhar ao lado de diferentes variantes do Cabeça de Teia para salvar o multiverso.
Após o sucesso de Venom, lançado em 2018 e protagonizado por Tom Hardy, a Sony percebeu que conseguiria seguir sem a participação direta da Marvel Studios e da Disney, utilizando vilões e outras versões do personagem em projetos próprios.
E o que se seguiu foi um verdadeiro circo de aberrações.
Após o mundo ser abençoado com Jared Leto no papel de Morbius e o público ser agraciado com a palavra de Dakota Johnson em Madame Teia, filme onde o vilão principal é derrotado por um letreiro da Pepsi, restava apenas um projeto dessa leva. Um projeto que mais parecia um filho sem pai, que a Sony tentava a todo custo empurrar para debaixo do tapete: Spider-Noir, protagonizado por Nicolas Cage. Anunciado em 2023 como uma série, o projeto passou anos sem muitas informações, enquanto o público seguia em frente e se popularizava o discurso de que o gênero de super-heróis não tinha mais nada para mostrar, ainda mais quando o assunto eram produções da Sony.
Eu mesmo era um desses. Não vi trailer, não acompanhei materiais promocionais e sequer tinha grandes expectativas para Spider-Noir.
Entretanto, o quão errado eu estava.
Spider-Noir é um verdadeiro sopro de ar fresco para o gênero. Misturando tropos dos clássicos filmes noir com os mitos modernos dos super-heróis, a série não tem medo de inovar e prova que o gênero ainda possui muitas cores para mostrar.
Uma vez conhecido pelo povo de Nova York como o herói Spider, o veterano de guerra e detetive Ben Reilly (Nicolas Cage) deixou essa vida para trás após uma tragédia mudar completamente o rumo de sua vida cinco anos antes.
Entretanto, quando um novo caso envolvendo Cat Hardy (Li Jun Li) traz à tona uma conspiração envolvendo gângsteres e monstros, Ben precisa confrontar seu passado e vestir a máscara mais uma vez.
Desde sua abertura até o encerramento, Spider-Noir deixa claras suas inspirações. Com planos abertos e longos, frases de efeito e uma Nova York dos anos 30, a série bebe diretamente da fonte dos clássicos filmes e seriados de detetive. A trama se desenrola em uma verdadeira teia de mistérios e conspirações, com reviravoltas e intrigas dignas dos melhores representantes do gênero.
Claro que, no centro de tudo isso, temos Nicolas Cage.
Gostaria de comentar que nunca fui um grande fã do ator, mas aqui ele me conquistou logo na primeira cena. Com frases de efeito, tiradas inteligentes e um protagonista um tanto narcisista, Cage interpreta um personagem que simplesmente ama ser o mais inteligente da sala. Sua naturalidade, mesmo nas situações mais intensas, transmite a experiência de um detetive veterano que já viu de tudo. A atuação de Cage é complementada por Janet (Karen Rodriguez) e Joseph Robertson, personagens com os quais ele divide excelentes trocas cômicas ao longo da temporada.
Aliás, uma curiosidade: sim, você não leu errado. Ben Reilly é o nome do protagonista.
Para os não familiarizados, Ben Reilly é o nome do clone de Peter Parker nos quadrinhos, acreditem, quando se trata da Saga do Clone, a toca do coelho vai muito longe, mas aqui estamos falando de outro personagem. Por que essa mudança? Segundo rumores, a decisão teria sido tomada para evitar associar o nome Peter Parker a um protagonista alcoólatra, especialmente com um novo filme do Homem-Aranha nos horizontes.
Ainda assim, eu adoraria ver o verdadeiro Ben Reilly dos quadrinhos ganhando um projeto próprio no futuro.
Sua identidade noir continua até mesmo do lado dos vilões. Não temos aqui planos elaborados para destruir o mundo, romper dimensões paralelas ou ressuscitar entidades cósmicas. Interpretado por Brendan Gleeson, Cabelo de Prata é um líder mafioso que tem Nova York em suas mãos. Em vez de uma ameaça física, seu embate com Reilly acontece no campo psicológico. Cara a cara, ambos tentam contornar os segredos um do outro para descobrir de quem a máscara cairá primeiro.
Eu já elogiei a forma como a série foi filmada, mas preciso voltar a esse assunto. A direção utiliza planos abertos e detalhados, valorizando cada cenário e cada pequeno detalhe da ambientação, acompanhado por uma decisão que, admito, nunca tinha visto ser implementada dessa forma: a escolha de disponibilizar ao público duas versões da série, uma em preto e branco e outra em cores, permitindo alternar entre elas a qualquer momento durante os episódios.
Sim, outros projetos já receberam versões em preto e branco. Dentro do próprio gênero de super-heróis, me recordo de Liga da Justiça de Zack Snyder, lançada em 2021 na HBO Max. Entretanto, enquanto nesses casos existe claramente uma versão principal e outra alternativa, em Spider-Noir é difícil dizer qual delas ocupa esse papel.
E digo isso porque ambas são impecáveis.
Enquanto a versão em preto e branco combina perfeitamente com o clima de época proposto pela narrativa e intensifica a tensão do romance entre Reilly e Hardy, a versão colorida aposta em uma fotografia vibrante, utilizando cores intensas em cada quadro, seja na luz do amanhecer ou no brilho da lua refletido nas lentes do Spider. Ao invés de estabelecer uma delas como definitiva, a produção foi concebida pensando nas duas experiências simultaneamente, deixando claro que sua ambição jamais caberia em um único formato. A possibilidade de alternar entre ambas a qualquer momento é uma conquista técnica exemplar e demonstra a criatividade e a paixão dos realizadores.
E talvez esse seja o maior feito da série.
Em uma era em que o gênero de super-heróis parece cada vez mais preso à reciclagem de histórias, especialmente por parte da Marvel, é extremamente satisfatório ver um projeto disposto a ir além do óbvio e uma produção que aproveita justamente o fato de não carregar grandes expectativas para experimentar, ousar e provar que esse gênero ainda tem muito espaço para evoluir.
E isso me faz desejar que mais pessoas assistam a essa série.
Aqui também preciso abrir espaço para falar do marketing da série: Como mencionei anteriormente, este é o último remanescente dos projetos da Sony ligados ao universo expandido do Homem-Aranha, e isso inevitavelmente afetou sua recepção. Spider-Noir parece ter sido simplesmente descartada no catálogo da Amazon Prime Video, chegando apenas uma semana após o encerramento da última temporada de The Boys, sem muito esforço por parte do marketing para colocá-la na boca do público. Isso aconteceu mesmo após as primeiras críticas profissionais destacarem a produção como um dos melhores projetos do gênero nos últimos anos.
Embora não existam números concretos de audiência disponíveis, basta observar as redes sociais para perceber que a série gerou muito menos repercussão do que merecia, e parece haver pouco interesse por parte da Sony em promovê-la, o que é curioso vindo de um estúdio que acreditou tanto em Morbius a ponto de relançá-lo nos cinemas em 2022, apenas para vê-lo fracassar novamente poucos meses após sua estreia original.
Depois de anos tentando emplacar um projeto live-action próprio do Homem-Aranha, sem a Disney no pé, eles finalmente conseguem criar algo especial com uma equipe extremamente talentosa e simplesmente o tratam como descartável, e esse não deveria ser o caso, os estúdios precisam acreditar nos seus projetos e fazer com que eles cheguem ao público.
Porque eu me recuso a acreditar que esta será apenas uma temporada e fim.
Spider-Noir representa tudo aquilo que o gênero tem de melhor para oferecer: criatividade, personalidade e coragem para experimentar. A série consegue realizar feitos que grandes produções cinematográficas não conseguem, cativando o espectador com sua identidade própria e uma narrativa que não precisa se apoiar apenas no espetáculo para mantê-lo preso à cadeira.
Nota: 5/5
Direção: Harry Bradbeer
Elenco: Nicolas Cage, Li Jun Li, Lamorne Morris, Karen Rodriguez, Abraham Popoola, Brendan Gleeson
Análise feita por Bruno Sá