Eu não sei vocês, mas existe uma sensação que só a gente conhece quando sente que não vai gostar de uma obra. Entendem do que eu tô falando? Seja nas primeiras páginas de um livro que não cativa, nos primeiros episódios de uma série que falha em te prender ou nos primeiros minutos sem sal de um filme, acho que todo mundo já sentiu isso alguma vez.
E esse foi exatamente o caso de Golpe Explosivo. Com um título de corujão e um início truculento, o longa não me parecia ser nada demais: apenas mais uma trama de roubo genérica. Mas como eu estava enganado.
Golpe Explosivo veste o genérico de propósito e prende sua atenção em uma ampla teia de eventos. Quando você menos percebe, já não sabe mais em quem confiar.
Quando a descoberta de uma bomba força o governo a evacuar Londres, o palco está armado para que a gangue de criminosos liderada por Karalis (Theo James) o roubo de banco perfeito. Mas quando o militar Will (Aaron Taylor-Johnson) é chamado para conter a situação, inicia-se uma ampla rede de conspirações onde o assalto rapidamente se revela apenas a ponta do iceberg.
Sim, reafirmo: os primeiros 20 minutos de Golpe Explosivo me deixaram com o pé atrás. Pulando de um lugar para o outro e apresentando inúmeros personagens, o início da trama é quase nauseante e passa a impressão de que pegamos a história na metade do caminho, sem muito contexto para os eventos que se desenrolam.
Mal sabia eu que tudo isso era proposital. O longa, dirigido por David Mackenzie, que tem o costume de apresentar situações e personagens que nunca são o que parecem, introduz elementos suficientes para deixar o público confuso, mas confortável. Existe uma falsa sensação de controle, de que aquela trama se desenrolará como qualquer outra história de roubo.
O longa apresenta suas intenções no personagem Will. Aaron Taylor-Johnson transmite a postura do militar perfeito: fechado, disciplinado, um líder que preenche o ambiente apenas com sua presença e que inspira confiança com poucas palavras de afirmação. Essa confiança é proposital, pois não há muito espaço para leituras complexas nesse primeiro momento. É justamente aí que o longa se prepara para te pegar desprevenido.
Golpe Explosivo introduz narradores não confiáveis, desconfiança e mistério. Aliás, acho interessante que Taylor-Johnson interprete aqui um especialista em desarmamento de bombas, da mesma forma que em Godzilla (2014). A coincidência é tão grande que, em diversos momentos, parece o mesmo personagem.
Com boas cenas de ação, o verdadeiro destaque está na dinâmica entre os atores, transmitindo o famoso “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O longa posicionou Sam Worthington como um dos rostos principais do material promocional, e não à toa: estamos falando de Jake Sully, protagonista da franquia Avatar, a maior bilheteria da história do cinema. Mas é Theo James quem carrega o filme nas costas. Sua performance de cafajeste carismático, ladrão oportunista e assassino frio entrega toda a complexidade dos eventos e do mistério. Sério, é quase impossível falar propriamente deste filme sem entrar em spoilers.
Apesar de o marketing vender um filme de ação, ele é muito mais do que isso. Temos aqui algumas das viradas mais interessantes do ano, em um longa que, apesar de passar um pouco despercebido na temporada, tem muito a mostrar. Com um início lento, Golpe Explosivo te deixa confortável apenas para te jogar em uma montanha-russa de acontecimentos que vai te manter na ponta da cadeira durante toda a sua duração.
Nota: 4/5
Direção: David Mackenzie
Elenco: Theo James, Aaron Taylor-Johnson, Sam Worthington, Gugu Mbatha-Raw, Saffron Hocking, Elham Ehsas
Análise feita por Bruno Sá