Caro leitor, eu vou te falar: 2026 tem sido um ano surpreendente para o cinema. Desde Devoradores de Estrelas, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, emocionar mundo afora com sua adaptação, até o recente fenômeno Backrooms: Um Não-Lugar, dirigido por Kane Parsons, que, com apenas 20 anos de idade, superou Star Wars nas bilheterias. Mas eu não estava pronto para o tópico deste texto.
Assim como para muitos, Obsessão não estava no meu radar. O longa de Curry Barker foi destaque no Festival de Toronto, mas com um orçamento baixo e pouco investimento em marketing, poderia facilmente ter sido um daqueles projetos que passam despercebidos e eventualmente desaparecem sem causar qualquer impacto.
Até algo acontecer.
Com diversos edits e relatos do público explodindo no TikTok e nas redes sociais, eu simplesmente precisava descobrir do que esse filme se tratava. Saí da experiência completamente aterrorizado e com muito para dizer. Obsessão é um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, é cruel, assustador, feito para marcar e ser discutido. Como um conto de fadas saído de pesadelos, o filme choca ao retratar a violação da própria essência em prol da felicidade de outros que podem possuir uma interpretação deturpada e imatura do que significa amar.
Eu não havia planejado assistir ao longa, muito menos escrever um texto sobre ele, mas deixo aqui minha contribuição para que mais e mais pessoas corram aos cinemas para conferir esse projeto que já pode ser considerado um clássico do terror contemporâneo.
Bear (Michael Johnston) é um jovem tímido e introvertido, apaixonado por Nikki (Inde Navarrette), uma garota cheia de vida e sonhos para o futuro. Quando uma tentativa de se declarar não sai como o planejado, Bear faz um desejo desesperado: que Nikki o ame mais do que qualquer outra coisa no mundo.
Mas o que parecia ser a oportunidade perfeita de ter sua paixão ao seu lado, rapidamente ganha contornos sombrios. Conforme o comportamento de Nikki muda, todos ao seu redor são arrastados para uma espiral de eventos devastadores, enquanto as linhas entre amor, obsessão e abuso se tornam cada vez mais nebulosas.
Curry Barker era conhecido principalmente por seus curtas, atualmente disponíveis no YouTube, e havia dirigido apenas um longa-metragem, Milk & Serial, em 2024, sem grande repercussão. Entretanto, é justamente por passar despercebido que Obsessão se tornou o filme que é.
Veja bem: este é um longa que aterroriza ao utilizar uma ideia simples. Não temos aqui uma mitologia extensa e confusa, dezenas de explicações, um assassino mascarado ou um monstro à espreita. Tudo nasce de um conceito contido, quase infantil, inspirado por um aviso que todos já ouvimos alguma vez na vida: tome cuidado com o que você deseja. Perceba que, ao descrever a narrativa, eu não citei o objeto utilizado para realizar o desejo nem entrei em detalhes sobre os aspectos sobrenaturais da trama. Faço isso por dois motivos. O primeiro é não estragar sua experiência e permitir que você tire suas próprias conclusões. O segundo é que esses elementos são, em grande parte, irrelevantes.
O desejo de Bear, mesmo que inicialmente pareça inocente, desencadeia consequências perversas movidas por irresponsabilidade, falta de maturidade e pela incapacidade de enxergar além da própria fantasia. Em outras palavras, o longa funciona como uma subversão do arquétipo do “romântico incurável” que conquista a garota no final da história. Aqui, essa fantasia é transformada em uma narrativa de aprisionamento, na qual a felicidade do outro se torna irrelevante desde que ele permaneça ao seu lado.
Bear é um rapaz fechado e tímido, mas que se esforça para estar presente na vida de seus amigos. A trama não o posiciona necessariamente como um vilão em um primeiro momento. Somos introduzidos à sua casa, palco de boa parte das sequências do filme, como um ambiente escuro e sufocante, reflexo de um jovem que não demonstra confiança nem mesmo na forma como se veste ou se expressa.
Sejamos honestos: boa parte de nós já foi como ele. Jovens apaixonados, aterrorizados pela rejeição e alimentados por fantasias de amor verdadeiro. Entretanto, onde muitos aprendem a lidar com a frustração, Bear escolhe outro caminho. Incapaz de aceitar um não como resposta, ele passa a impor sua própria felicidade acima de qualquer outra coisa.
Acho impressionante como o filme utiliza o grupo de amigos de Bear. Sarah (Megan Lawless) e Ian (Cooper Tomlinson) são mais do que simples âncoras morais para a narrativa; eles existem para evidenciar uma verdade desconfortável: com desejo ou sem desejo, a vida de Bear estava fadada ao colapso. Sua obsessão por Nikki é apenas um sintoma de algo maior. Sua incapacidade de crescer, de assumir responsabilidades e de enxergar além de si mesmo faria com que não apenas seu relacionamento com Nikki, mas também suas amizades, implodissem mais cedo ou mais tarde. O verdadeiro horror aqui não nasce do sobrenatural, mas de um jovem covarde que ainda não aprendeu a ser adulto.
A atuação de Michael Johnston acerta em cheio ao transmitir um jovem incapaz de tomar até mesmo as decisões mais básicas, mas é Inde Navarrette quem carrega o filme nas costas.
Palavras não são suficientes para descrever sua atuação. A transformação de uma jovem alegre e esperançosa em algo que se aproxima de uma máquina programada para cumprir uma única função é instantaneamente perturbadora. O mais impressionante, entretanto, é como essa mudança continua evoluindo ao longo da narrativa. O que começa com um olhar prolongado e gestos de afeto exagerados gradualmente escala para comportamentos cada vez mais violentos e assustadores.
A atriz consegue, muitas vezes em uma única cena, transitar entre diferentes versões de Nikki: de uma paixão incontrolável para alguém aprisionada dentro da própria mente, incapaz de recuperar o controle da própria vida.
Aliás, o grande destaque para mim são seus olhos. Inicialmente cheios de vida, o filme faz questão de enquadrar Nikki em planos fechados e escuros, permitindo que seu olhar se perca na escuridão. Onde antes existia personalidade, sonhos e humanidade, resta apenas um vazio inquietante, um vórtice desprovido de emoção. Eu consigo visualizar um verdadeiro pandemônio nas ruas, e estarei lá, caso Inde Navarrette não seja indicada a inúmeras premiações, incluindo o Oscar, por entregar uma das atuações mais marcantes do cinema nesta década.
Conforme os comportamentos de Nikki se tornam cada vez mais violentos e macabros, o longa sufoca o espectador com sua tensão. A sensação constante é a de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento. Entretanto, o momento mais assustador do filme foi a realização de que temos em mãos um terror muito mais real do que parece.
Em um mundo onde muitas relações acabam se resumindo a posse, status e desejo, Obsessão nos leva a questionar o que realmente significa amar alguém. Em muitas vezes, a felicidade de uma pessoa se torna irrelevante para a outra; o importante não é vê-la feliz, mas garantir que ela permaneça ali.
O que me deixou acordado durante a noite não foram apenas os comportamentos de Nikki, perturbadores o suficiente para fazer o público cobrir os olhos, nem a omissão e conivência de Bear, capazes de revoltar até os mais pacientes. Foi um momento íntimo entre o casal. Uma cena aparentemente simples, mas que revela toda a crueldade da situação. Ali, pude sentir os contornos do horror em sua forma mais humana: quando, para caber no sonho de outra pessoa, você deixa de ser alguém e passa a existir apenas como um objeto.
Obsessão é um filme de terror para entrar para a história. Não apenas por ser um dos mais recentes casos de sucesso nos cinemas, mas por sua narrativa revoltante, sua tensão constante e sua assustadora proximidade com a realidade. Acredito que este seja o tipo de história que todos deveriam ouvir pelo menos uma vez na vida. Um lembrete de que paixão e amor são coisas muito diferentes e que, quando confundidos, podem deixar cicatrizes profundas.
Assustador, cruel e visceral, Obsessão é um daqueles raros filmes que permanecem com você muito depois dos créditos finais. Portanto, faça um favor a si mesmo: corra para o cinema mais próximo IMEDIATAMENTE e assista à próxima sessão disponível.
Nota: 5/5
Direção: Curry Barker
Elenco: Inde Navarrete, Michael Johnston, Cooper Tomlinson, Megan Lawless, Andy Richter, Chloe Breen
Análise feita por Bruno Sá