Caro leitor, se prepare, porque esse vai ser um texto daqueles. Vamos voltar alguns anos no tempo: em meio à guerra dos streamings, a Amazon surge com o Prime Video inicialmente de forma tímida, mas uma série estava prestes a mudar tudo. Já fazia mais de uma década que circulavam rumores sobre uma adaptação da HQ The Boys, de Garth Ennis. Inicialmente pensada como filme, a adaptação acabou se tornando uma série ao parar nas mãos do showrunner Eric Kripke, contando também com Seth Rogen e Evan Goldberg na produção.
Com uma leitura mais “realista” dos super-heróis no mundo moderno, a série acompanha um grupo liderado por William Butcher (Karl Urban) em uma missão para destruir a Vought, corporação responsável por criar, lucrar em cima dos super-heróis e ocultar seus crimes. Talvez por ter estreado logo após Vingadores: Ultimato, justamente quando a chamada “fadiga” do gênero de super-heróis começava a surgir, a interpretação de The Boys sobre figuras superpoderosas e a crueldade de seu mundo funcionaram como um verdadeiro respiro de novidade.
Após sete anos, uma série spin-off e cinco temporadas, The Boys chega ao fim em uma temporada polarizada, para dizer o mínimo. E não apenas entre os fãs: até parte do próprio elenco demonstrou insatisfação com os rumos tomados pela conclusão da série. A última temporada entrega uma conclusão satisfatória em nível emocional, mas falha ao não cumprir várias das promessas estabelecidas nas temporadas anteriores. Entre personagens com motivações conflitantes e uma necessidade constante de estabelecer futuros projetos derivados, o encerramento acaba perdendo parte do impacto que deveria ter.
Um ano se passou desde os eventos da temporada anterior. Hughie (Jack Quaid), Francês (Tomer Capone) e Leitinho (Laz Alonso) foram capturados pela Vought, enquanto Capitão Pátria (Antony Starr) assume não apenas o controle da empresa, mas também do próprio governo americano.
Quando um vírus capaz de exterminar todos os super-heróis do mundo surge como uma possível solução definitiva, cabe a Butcher, Kimiko (Karen Fukuhara) e Luz-Estrela (Erin Moriarty) reunir o grupo para o embate final contra Os Sete, que dessa vez também contam com a ajuda de Soldier Boy (Jensen Ackles).
Por onde começamos? Que tal pelo nosso grupo principal? Ao contrário da temporada anterior, que tinha Butcher e sua equipe separados na maior parte do tempo, ou em constante conflito quando dividiam cena, a quinta temporada mantém o grupo unido durante praticamente toda sua duração.
Essa união também evidencia o contraste no desenvolvimento de cada personagem ao longo dos anos. Hughie e Butcher carregam o núcleo emocional da temporada justamente por representarem visões completamente opostas de mundo, enquanto o desespero aumenta e os personagens são colocados constantemente no limite, questionando todos os seus valores.
O romance entre Francês e Kimiko também se torna um dos aspectos centrais da temporada. Enquanto o vírus ameaça acabar com todos os supers do planeta, o relacionamento dos dois acaba diretamente na linha de fogo, com um deles precisando considerar um sacrifício final.
A dinâmica entre os personagens também ganha novos contornos agora que Kimiko finalmente fala. Isso mesmo. A personagem, antes retraída por seus traumas e constantemente usada pelos outros apenas como uma arma, encontra um novo propósito ao lado de Francês. Sua capacidade de falar deveria representar a conclusão completa do arco da personagem, mas infelizmente não é isso que acontece. A série reduz aquilo que deveria ser um impacto emocional enorme, tanto para Kimiko quanto para as pessoas ao seu redor, a um simples alívio cômico. Em uma temporada decisiva, sua nova voz acaba frequentemente limitada a piadas envolvendo sexo e consumo de pornografia.
Do lado dos antagonistas, o grande destaque continua sendo Antony Starr no papel de Capitão Pátria. O ator já vinha sendo o principal destaque de The Boys desde sua primeira temporada, mas aqui ele se consolida como um dos antagonistas mais memoráveis da televisão nos últimos anos. Seu comportamento intenso, sempre a um passo de destruir o mundo inteiro, é representado perfeitamente por Starr. Destaque inclusive para sua linguagem corporal e expressões, que conseguem transmitir o conflito interno de Capitão Pátria: ao mesmo tempo uma criança desesperada por amor e aprovação e um narcisista consumido por delírios de grandeza.
Entretanto, é justamente no núcleo de antagonistas que as rachaduras começam a aparecer, e o vazamento persiste até a conclusão da temporada. Quando The Boys começou, ela funcionava quase como um projeto experimental. Durante suas três primeiras temporadas, a série testava constantemente até onde poderia ir não apenas em sua violência e linguagem, mas também em seu tom e em suas alegorias políticas. E o público, eu incluso, adorou isso, porque a série raramente utilizava esses elementos de forma gratuita, buscando trazer reflexões interessantes sobre o mundo e nossa sociedade.
Entretanto, se eu pudesse resumir a quinta temporada em uma única frase, seria: falta de direção.
A série claramente sabe onde quer chegar, o confronto final entre Butcher e Capitão Pátria, mas não parece saber como chegar lá, ou sequer se ainda deveria chegar nesse ponto. Então todas essas alegorias retornam, mas agora vazias, sem impacto e frequentemente reaproveitadas.
Peguem Soldier Boy, por exemplo. Destaque absoluto da terceira temporada, o personagem representava o auge do egocentrismo e funcionava quase como um reflexo das origens de Capitão Pátria, deixando claros os traços herdados pelo vilão. Aqui, entretanto, Soldier Boy é reduzido a um personagem constantemente manipulado por todos ao seu redor e, sendo bem honesto, em muitos momentos nem sequer parece o mesmo personagem.
O retorno do personagem ainda introduz uma subtrama envolvendo seu amor por Clara/Tempesta (Aya Cash) e o impacto disso em sua vida, algo que simplesmente jamais havia sido mencionado nas temporadas anteriores.
Veja bem, eu não estou dizendo que, ao trazer personagens antigos de volta, a série não possa introduzir novas camadas para eles. O problema é que, se você vai passar mais da metade da temporada desenvolvendo um novo aspecto de um personagem, o mínimo esperado é que isso tenha relevância na conclusão da história e isso simplesmente não acontece aqui.
E esse não é um caso isolado. A quinta temporada de The Boys introduz personagens, ideias e conceitos constantemente apenas para abandoná-los no episódio seguinte. Peguem o super vírus, por exemplo, tratado como a arma definitiva contra Capitão Pátria e Os Sete. Ao invés da série realmente explorar o desespero do grupo de Butcher em encontrar uma solução para o conflito, mostrando cada tentativa fracassando contra os supers, o roteiro utiliza o vírus apenas quando conveniente e decide introduzir um novo elemento quase como um Deus Ex Machina no penúltimo episódio da série inteira.
E isso nos leva diretamente ao episódio final e à parte mais polêmica desse texto: eu simplesmente amei o episódio final.
Eu estava completamente convencido de que, após uma temporada morna e sem qualquer senso de urgência, a conclusão seria uma bagunça apressada, algo feito apenas para cumprir tabela. Mas não foi isso que aconteceu. O episódio final é emocionante justamente por abraçar o inevitável.
E acredito que o que torna esse encerramento tão poético é o fato de a série terminar negando a violência que a definiu desde o começo. Ao invés de um confronto gigantesco envolvendo o fim do mundo, o verdadeiro clímax de The Boys é uma discussão ao amanhecer, dentro de uma sala vazia, entre a esperança de um mundo melhor e uma vingança insaciável. Ainda assim, não posso deixar de mencionar que a falta de direção da temporada também recai sobre o último episódio e limita, e muito, seu impacto.
Desde a conclusão da quarta temporada, até mesmo os pôsteres divulgados antes da estreia da quinta prometiam transformar o planeta inteiro no campo da batalha final, com prédios destruídos e cidades em chamas. Algo que, segundo declarações, até o próprio elenco esperava e acabou se surpreendendo com a falta de ação da temporada.
E acredito que o problema venha justamente de dois extremos. Primeiro: The Boys possui, em sua essência, um conceito limitado. Acho a série muito superior às HQs justamente por não tratar seus personagens apenas como caricaturas vazias e nojentas. Entretanto, também mencionei anteriormente que a série passou anos testando até onde poderia chegar com sua violência e bizarrice. E qual o problema disso? Uma hora cansa.
Chega um momento em que tentar chocar o espectador com violência cada vez maior e situações mais absurdas simplesmente vira lugar-comum. O impacto diminui. E o que vemos aqui é exatamente isso: a fórmula cansou, e já faz algum tempo. Enquanto isso, os roteiristas transformam a conclusão de uma das séries mais populares da atualidade em uma ponte para futuros derivados.
Segundo: subverter a expectativa do público. Sinceramente, eu não acredito que os pôsteres e divulgações da temporada tenham sido feitos de má-fé ou apenas para enganar os fãs. Me parece mais uma tentativa de brincar com as possibilidades e consequências caso a missão dos protagonistas fracassasse.
Entretanto, em uma era dominada por internet, TikTok e especulações constantes, faltou um cuidado maior em recompensar as expectativas criadas no público. Porque, veja bem, eu realmente considero a conclusão da temporada corajosa por não optar pelo caminho da violência gratuita. O problema é que essa virada mais emocional surge apenas no último episódio e, novamente, acaba diluída por uma temporada inteira sem força suficiente para sustentá-la.
E onde isso nos deixa? Bom, se você acompanha séries nesse belíssimo ano de 2026, provavelmente já percebeu que hoje em dia nenhuma conclusão é realmente uma conclusão, mas sim uma ponte para o próximo projeto. E é impressionante como bate o desespero nos estúdios quando chega a hora de encerrar uma série e, ainda assim, manter o universo vivo. Nenhuma história mais pode simplesmente fechar suas portas de vez.
Então podem ficar tranquilos: o universo de The Boys vai continuar. A pergunta é… ele ainda tem força para isso? O jeito é esperar para ver.
The Boys chega ao fim ironicamente da mesma maneira que começou: polêmica, polarizada e na boca do povo. O episódio final consegue encerrar o arco de seus protagonistas de forma emocionalmente satisfatória, mas não é o suficiente para salvar uma temporada que, em muitos momentos, parece incapaz de justificar sua própria existência, ainda que continue divertida e entregue bons momentos ao longo do caminho.
Nota: 2,5/5
Direção: Dan Trachtenberg, Matt Shakman, Phil Sgriccia, Fred Toye, Stefan Schwartz, Jennifer Phang, Dan Attias, Eric Kripke
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Dominique Mcelligot, Jessie T. Usher, Laz Alonso, Tomer Capone, Karen Fukuhara
Análise feita por Bruno Sá